Fotografia:
Num país de «analfabetos funcionais»

Por ocasião do recente Dia Mundial para a Alfabetização foi referido que em Portugal, segundo dados oficiais de 2001, nove por cento da população é analfabeta.

N/D
13 Set 2004

A par desta questão ainda se coloca outro problema: os que sabem ler e escrever têm dificuldade em entender o que lêem e escrevem. A estes foi dado o nome de «analfabetos funcionais».

Continuando a desfiar números e rótulos, podemos ler que em Portugal, apesar da diminuição em dezassete por cento do analfabetismo nos últimos trinta anos, apenas vinte por cento dos estudantes atinge o ensino secundário, quedando-se a maioria pela escolaridade obrigatória. Daquele universo de nove por cento de analfabetos, 11,5 por cento (pc) são mulheres e 6,3 pc são homens.

Quem são, então, os «analfabetos funcionais»? São pessoas que sabem ler e escrever, mas não compreendem o significado das palavras, revelando essas dificuldades no preenchimento de um impresso, no manuseamento de um computador, na leitura de um livro e na organização do próprio pensamento. Segundo entendidos na matéria, os «analfabetos funcionais» são uma imensa multidão silenciosa e em crescimento…

Não basta dizer que se lê pouco, que se vê televisão em excesso ou que o abandono escolar tem de ser travado. Cada vez mais temos de descobrir as raízes desta nossa cotação lusitana de ser um dos piores países da Europa em matéria de instrução e cultura.

De facto, o dinheiro – barato, sedutor e fácil – entra-nos pelos olhos dentro quando vemos a promoção do futebol e ouvimos alguns pais a pactuar com as aspirações futebolísticas dos filhos porque «o futebol dá muito dinheiro» e «pode-se ser rico depressa»…

A fama – televisiva, novelesca ou da moda – seduz mais do que a valorização das capacidades pessoais acompanhadas pelo esforço e perseverança nos estudos. Em cada esquina vemos espreitar abutres manipuladores de crianças e adolescentes com promessas tentadoras e “carreiras” de sucesso. Veja-se a esquizofrenia de certos participantes em programas de “reality show”… Mas a voracidade do momento é maior do que a inteligência na condução do futuro!

Se há herança que os pais de-viam saber transmitir aos filhos é essa da capacidade de saber conduzir-se pela própria cabeça… muito mais do que pelas teias do dinheiro, das partilhas ou das terras/casas/carros. Como gostaria eternamente de agradecer aos meus pais essa herança – sofrida, longa e valiosa – que me puderam dar ao ter podido estudar na escola primária da minha terra natal e no Seminário Arquidiocesano de Braga…

Neste aprendi com muitos outros (às centenas) – hoje padres e também bons cristãos ou nem tanto – a saber distinguir que os valores do espírito são mais perenes, profundos e plenificantes do que todo o ouro do mundo… A vida se tem encarregado de valorizar essas sementes, tanto pelo estudo da teologia como na escola da vida humana e pastoral.

Estaremos culturalmente desenvolvidos para apostar mais nas dimensões do espírito (psíquico, intelectual, moral) do que nas das coisas materiais?




Notícias relacionadas


Scroll Up