Fotografia:
A quarta guerra mundial já começou

Pode parecer exagero, mas não é. O cardeal Renato Martino tem razão: a «quarta guerra mundial» já começou. O presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz explicou numa entrevista ao diário italiano “La Stampa” que a quarta guerra mundial (a terceira foi a guerra fria) diz respeito a toda a gente, porque ninguém sabe o que nos poderá acontecer «ao sair de um hotel ou ao entrar para um autocarro». Para o cardeal, «a guerra instalou-se ao lado de cada um de nós».

N/D
12 Set 2004

Não são, aliás, poucos os que julgam que vivemos mergulhados numa «quarta guerra mundial», embora nem todos estejam de acordo quanto à identidade dos beligerantes.
Uns, tal como, por exemplo, o “subcomandante” Marcos, chefe do Exército Zapatista de Libertação Nacional, do México, consideram que a «quarta guerra mundial» é a que opõe os adeptos da globalização a todos os que, de uma maneira ou de outra, lhe resistem; a que opõe, portanto, os que querem um mundo transformado numa grande empresa – gerida por um conselho de administração constituído pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial, a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico (OCDE), a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Presidente dos Estados Unidos da América, em que «os governantes de cada Estado serão apenas representantes do conselho de administração, uma espécie de gerentes locais» que «não defendem os interesses dos cidadãos, mas os interesses e valores deste conselho de administração mundial – e os que não aceitam o dinheiro como o deus destes tempos.

Outros sustentam que a «quarta guerra mundial» é a que opõe o «sobremundo» (já não é «submundo» há bastante tempo) do crime organizado transnacional, particularmente o que opera nos ramos do tráfico de armas, de drogas e de imigrantes clandestinos e da lavagem de dinheiro, aos estados democráticos cada vez mais vulneráveis e corrompíveis. E há ainda os que julgam que, fundamentalmente, a nova guerra é, se assim se pode dizer, a do terror global contra todo o mundo.

É possível que, descontando algumas simplificações, todos tenham razão. A guerra do terror global contra todo o mundo, ainda assim, é a que as televisões preferem. Outra guerras, como a do Darfur, onde a própria administração dos Estados Unidos da América reconhece existir um autêntico genocídio, nem sequer têm existência televisiva. Não são notícia, nem mesmo, quando a barbárie é sem medida, são propriamente motivo de suficiente preocupação para a comunidade internacional.

Depois do 11 de Setembro de 2001, o mundo foi-se tornando um lugar cada vez mais perigoso, para usar uma acertada frase-feita. Desde essa altura, os ataques terroristas têm-se multiplicado por todo o lado contra pessoas comuns que têm o azar de estar num escritório, num comboio ou numa escola no momento errado.

Paralelamente, a actuação dos governos dos países mais directamente afectados pelo terrorismo não tem, em geral, contribuído para sossegar os cidadãos. O que mais surpreende e intranquiliza é, frequentemente, a escassa inteligência que é colocada ao serviço da luta contra o terror. Contra uma cegueira é preciso mais do que outra cegueira.

De resto, confiar nos governos nem sempre é tarefa simples atendendo ao que se sabe sobre manipulações informativas ou acções criminosas cometidas ou tentadas designadamente por serviços secretos com o propósito de atirar as culpas para o “inimigo”. Além disso, a luta contra o terrorismo não pode ser um pretexto para ir ao Iraque e à Tchetchénia matar a torto e a direito.

O simples uso da força não basta para erradicar o terrorismo, disse na entrevista referida o cardeal Renato Martino, citando João Paulo II. O cardeal preconiza que a comunidade internacional deve «procurar as motivações» dos terroristas e dedicar-se ao exame de soluções para situações que provocam o terror. Tem, uma vez mais, toda a razão.




Notícias relacionadas


Scroll Up