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Um Verão com quatro Olimpíadas

Um “sporting summer” que começou pelo Euro 2004 – Junho já nos trouxera o Euro 2004, com as curiosas teimosias de Scolari, os seus protegidos (Jorge Andrade, Moreira, Ricardo, Miguel) e os seus desprezados (Baía, Fernando Couto, Rui Costa, Boa Morte, Sabrosa).

N/D
11 Set 2004

E lá conseguimos ficar em 2.º, apesar de termos perdido duas vezes com a Grécia, a qual por sua vez até empatou com a Espanha, perdeu com a muito fraquinha Rússia e eliminou no prolongamento, sem merecer, a brilhante República Checa.
Além desta coriácea e bem treinada Grécia (e vá lá, da nossa mal escalonada selecção), os conjuntos mais fortes terão sido a mesma brilhante República Checa, a inesgotável Dinamarca, a defensiva Itália, a valente e atlética Croácia e a concretizadora mas permeável (e sempre mal seleccionada) Inglaterra, que utilizou um imóvel e enorme armário de mogno no lugar do guarda-redes.

2. As Olimpíadas de Atenas e as de Najaf – Seguidor atento, que sou, do fenómeno desportivo, não deixei de acompanhar depois, também, os Jogos de Atenas, regressados outra vez à sua velha Pátria.

Eu, que em adolescente já estive dentro do Partenon e já pus os pés nas velhas pistas de terra da peloponésica Olímpia. Eu, que ainda por cima sou segundo primo desse João Brenha, que com Miguel Maia fez a sua terceira olimpíada seguida, não conseguindo desta vez repetir o brilhante 4.º lugar alcançado em ambas as anteriores edições. O Rui Silva, o Sérgio Paulinho e o Obikwelu, esses sim, é que desta vez se cobriram de louros. E o Emanuel Silva para lá caminha.

Mas infelizmente, a par das Olimpíadas em sentido próprio (as de Atenas), decorriam outras duas que a mim e a muita outra gente civilizada prenderam a atenção, tanto ou mais que aquelas.

Falo aqui da vertigem dos incêndios criminosos e organizados que até ao início de Agosto continuaram a devastar o território português. E falo igualmente do prolongado cerco e ataque que os americanos impuseram à cidade-santa muçulmana de Najaf, onde repousam os ossos do genro e parente do Profeta, no caso, Ali o 4.º califa, morto em 661, na vizinha Kufah.

As imensamente bem armadas forças de George W. Bush porfiaram por quase um mês inteiro, no sentido de conseguir desalojar (ou massacrar) as motivadíssimas milícias do chamado “exército do Mehdi”, ou “do Prometido”.

Esta tropa irregular xiita obedece aos comandos dum jovem eclesiástico, baixo, gordo e barbudo, com um olhar algo indecifrável, entre o matreiro e o inteligente, de seu nome Moqtada al Sadr. É “filho de peixe”, pois seu pai, que morreu assassinado, foi igualmente um sacerdote de prestígio.

Os americanos continuaram a apertar cada vez mais o cerco e a bombardear a cidade. O próprio templo sofreu estragos de certa monta. Algumas mentes politicamente mais capazes acabaram por fim por evitar o pior; isto é, evitar que aquele santuário tão especial fosse destruído à bomba e a tiros de metralha e que o caixão do fundador do Xiismo desaparecesse ou fosse profanado. Façanha que tornaria a invasora grei transatlântica, célebre “por omnia secula” entre os seguidores de Mafoma.

Aquela postura “terra-queimadista” dos filhos de Lincoln não vem sendo, aliás, fruto de descontrole ou mau humor momentâneo. Pois não foram os americanos que o ano passado, quando, tomaram Bagdad quase sem resistência, deixaram que o seu preciosíssimo museu de antiguidades fosse saqueado e dele tivessem desaparecido quase todas as milenares colecções, no valor de muitos milhões de contos?

Mas felizmente em Najaf lá prevaleceu o bom senso e alguém se lembrou de vencer Moqtada pela manha e “apenas por 1-0 ou 2-1”. Para tal, foram a um hospital de Londres buscar o grande chefe dos xiitas, o qual era tão tolerante para com os invasores anglo-americanos que aceitara pôr a sua vida e saúde nas mãos dos cardiologistas conterrâneos de mr. Bean e súbditos de mr. Blair e mr. Straw (o velho clérigo fôra aí mesmo, em Londres, uma das capitais “do inimigo”, operado ao coração).

Convalescente, aceitou regressar rapidamente ao Iraque e participar numa longa jornada, a pé e de automóvel, até Najaf, onde Moqtada prometera que lhe entregaria finalmente as chaves do templo e a posse do local. E assim aconteceu. Poderia ter sido bem pior. “À suivre”…

3. A “olimpíada” dos fogos florestais – Para sermos rigorosos, o fogo-posto florestal ainda não é uma modalidade olímpica. Mas bem poderia ser, pois é uma actividade a que não falta emoção e está bem difundida em certos países (ainda não muitos, por enquanto).

E além do mais é barata de praticar, basta um pouco de gasolina e uma caixa de fósforos para cada concorrente individual ou, como é mais habitual, para cada quadrilha (queria eu dizer, “equipa”, é isso, “equipa”) de concorrentes.

Para uma melhor “performance”, também se utilizam motorizadas ou carros (e até, avionetas), além de dois ou mais telemóveis por equipa, já sem contar com os indispensáveis pequenos prémios, em dinheiro ou estupefacientes.

Uma das prováveis razões pelas quais a modalidade do fogo-posto florestal ainda não é uma modalidade olímpica é a de que o incendiário precisa de grandes áreas de floresta para praticar o seu desporto favorito, normalmente na ordem de vários milhares de hectares.

E normalmente uma olimpíada restringe-se mais modestamente ao espaço acimentado de uma cidade (além de que a maioria das outras competições não necessita de área superior à de um único hectare, pois tem lugar dentro de um campo de futebol).

Uma segunda razão para a ainda não consagração olímpica do nobre desporto do incendiarismo prende-se com o clima. É que, se chove, não há mesmo forma de se dar início ao certame. E depois haveria até tendência de só serem realizadas no futuro olimpíadas em cidades de clima seco e quente.

Há até uma minoria de adeptos de outros desportos que diz que o fumo faz mal à saúde, rouba o oxigénio e prejudica a visibilidade dos outros concursos, mas esses retrógradas não passam de uma corja de mal intencionados.

Na impossibilidade actual de integração no movimento olímpico, sugere-se aos praticantes do incendiarismo (e aos seus muitos apoiantes e adeptos nas mais altas esferas do Estado) que ao menos publicitem as excelentes marcas alcançadas pelo nosso país nos últimos anos, com vista à inscrição no livro Guinness de recordes.

Este ano aliás estávamos tão bem encaminhados, mas infelizmente as chuvas de Agosto e Setembro impossibilitaram marcas de nível internacional. Desta vez vamos ficar atrás da concorrência do costume, da Califórnia, Zaire, Gabão, Colômbia, Brasil, Filipinas, Austrália e Indonésia.

Porém, e apesar de tudo, os nossos jovens e menos jovens participantes já conseguiram a proeza olímpica de extinguirem os últimos linces de Portugal nas serras algarvias, devido ao glorioso incêndio da grande serra do Caldeirão. Os poucos sobreiros que escaparam (espécie daninha e infestantes, essa) ficam para o ano.

«Got a medal!», como diria algum general do exército libertador que hoje se passeia por Assíria e Babilónia. «Altius, citius, fortius», sempre e cada vez mais…




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