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Lirismo não, por favor

Não é meu hábito tecer considerações sobre a opinião expressa por um colaborador, que é publicada por este prestigiado diário. A função de aprovar ou não qualquer articulado para tornar público, compete naturalmente ao responsável máximo, o Director, e a nós, como eu, na qualidade de modestos colaboradores, a obrigação de aceitar, sem o mínimo melindre, que um ou outro trabalho não possui mérito suficiente que justifique a publicação.

N/D
10 Set 2004

Porém, sujeito a estes naturais condicionalismos, não resisti a questionar dois artigos publicados no mês de Agosto. No dia 19, da autoria de J. Carlos Queiroz, subordinado ao título “Liberdade e Censura…”, a produção do artigo publicado continha uma série de frases feitas, de sentido sublime, que abordaram os princípios e valores fundamentais.

Para preservar os citados, segundo o autor, e acredito que ninguém contesta a receita a aplicar, que incluía «não abdicando de direitos, exigindo justiça»… «ou proibir o uso da razão». Fraseado muito bonito, mas, infelizmente, diluído pela prática do quotidiano.

Solicitando ao autor as minhas desculpas, se interpretei mal o sentido que desejou exprimir, o mesmo não acontece com as palavras contidas no último parágrafo do artigo publicado. Textualmente: «mas censura não, nunca mais». Todos sabemos (à excepção do autor, pelos vistos) que a censura sempre existiu.

Só que, agora, apenas não está oficializada. Toda a gente sabe que, a exemplo, um assessor de imprensa autárquico não manda para os órgãos de comunicação social a verdade do que se passa, mas sim a verdade que o chefe quer que seja publicada. Se o não fizer, arrisca-se a perder o emprego. Não duvido que possa existir alguma excepção à regra.

Porém, ela é tão diminuta que não altera o que foi ilustrado. Assim, é caso para interpelar: se isto não é censura, então desconheço o significado da palavra!

Com sinceridade, assiste-me certa dúvida sobre o que será mais nocivo: se uma censura oficializada, como a que existia antigamente ou uma liberdade de expressão fortemente condicionada. A do tempo dito da “outra senhora”, pelo menos tinha a vantagem de sabermos o que tínhamos e era com esse sistema que vivíamos, se não queríamos incorrer em inconvenientes vários.

Na era vigente, nunca sabemos quando somos livres. Igualmente, se o texto não é sujeito ao arbítrio do chefe, há a consequência do facto. Ao longo de trinta anos do sistema vigente, sempre abundaram as assinaturas de opinião “Leitor identificado”.

Traduzindo tudo isto em desoladora realidade, sempre houve portugueses que não acreditam que somos livres. É triste, mas é verdade!

Também existe uma outra privação da liberdade de expressão. A que pode ser designada de auto-censura. Fala-se e escreve-se muito, mas não se diz nada. Nesse sentido, julgo, foi o apontamento com o título “Sobre alguns silêncios”, publicado no dia 27 do mesmo mês de Agosto, texto que subscrevo por inteiro, a cargo do cronista Carlos Aguiar Gomes. Expressou com propriedade «quem cala consente».

A esta iniludível verdade, acrescento: peca-se e muito por omissão! O situacionismo impede a denúncia de muito que anda mal em carências de ordem social. E, para agradar a interesses instalados, opta-se pelo cómodo silêncio ou então, escrevendo-se sobre temas que quase ninguém lê! Como lenitivo, servimo-nos de uma frase
bem conhecida: «há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não» ao situacionismo cá do burgo.

Retomando o fio à meada, lirismo não, por favor. Já basta o que é produzido nas cerimónias oficiais, em especial nas sessões solenes que ocorrem uma vez por ano no assinalar da data da efeméride de Abril.




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