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Fascínio da montanha…

Será ainda a reserva pura de um Portugal de antanho, que queremos conservar apenas como relíquia, ou o espólio vivo de um povo que, nem sempre embarcando no progresso, se deixa modelar pelo novo, mas sem se estandardizar?

N/D
10 Set 2004

Navegar por esse Portugal interior, embora sem as bússolas dos barcos, é reconhecer a diferença de um litoral mais rico, mas nem sempre melhor equacionado.
É que vivemos ainda de complexos de adolescentes, onde a praia e cosmética se divinizaram, mas esquecemos idílios, que vegetam nas montanhas, ou no meio das florestas e serras de um interior como verdadeiro matagal rechaçado, que constitui o dorso de uma costa atlântica nem sempre ciosa do mar.

Por isso, visitar esse interior profundo, periférico e desertificado, é ainda ocasião de aferir a alma de um povo postergado ou esquecido, mas genuíno e orgulhoso das suas origens, menos prostituído pelos gostos de cáfilas estranhos, que se baldaram sempre dos seus pergaminhos.

Esse interior – que já não visitava há anos -, forneceu-me o caleidoscópio de um Portugal que conheci, mas pouco beneficiou de perspectivas e fundos comunitários europeus. Preza-se, contudo, de ser a voz lídima de uma ânsia profunda, cimentada nas suas tradições e reinventada nas origens, sem se postergar ou diminuir, mantendo-se fidedignas ao tronco das suas árvores, embora algumas florestas calcinadas por gostos pérfidos ou desvairados. Quem não gostaria de o conhecer?…

Assim, tive ocasião de visitar a Sertã, pela estrada que leva de Condeixa a Castelo Branco. Há muito não tomava este percurso, mas revelou-me um outro Portugal visto com outros olhos, talvez hoje manchados por um progresso planificado ou estandardizado nos moldes de uma Europa, que caminha sem destino, errante ou tresmalhada na alma, no entanto berço de civilizações e culturas, que parecem adormecidas.

Assim, quis ver o húmus profundo deste povo: os seus costumes, serras, albufeiras e barragens de água a criar verdadeiros micro-climas de vegetação natural e ameno, dos mais agradáveis do País. Vi planícies transformadas como olivais, que estendem os seus braços em copas rebaixadas, luzidias de azeitona, por muito tempo esquecidos ou abandonados.

Mais que tudo, vi pinheiros esguios, alguns vergados e outros calcinados, verdadeiros testemunhos de um presente rico, se explorado noutros moldes, afeiçoando um terreno seco, onde algumas vinhas estendem os seus ramos.

Admirei aldeias completamente transformadas como planícies cheias de casas brancas de emigrantes, algumas mal integradas, por culpa de quem?… Admirei a sede do concelho com o seu castelo e a bela igreja matriz com uma talha original de cinco séculos, escrínio de um passado rico e exuberante como a ponte romana ao lado de Casa da Cultura, da música e da albergaria-restaurante, que a autarquia pôs à disposição da hotelaria da região para acolher o turista e proporcionar uns dias de repouso a quem chega.

Não se trata de um turismo estandardizado, mas rural, em família, onde a gastronomia regional tem foros de tradição, como os seus pergaminhos eclesiásticos se guardam religiosamente, mau grado a escassez de vocações sacerdotais. Esta Beira Litoral, que continua pela Beira Alta e pelo Ribatejo, abre-nos para as Viagens ou a Via-gem que Garrett nos deixou nas suas crónicas…

Será ainda a reserva pura de um Portugal de antanho, que queremos conservar apenas como relíquia, ou o espólio vivo de um povo que, nem sempre embarcando no progresso, se deixa modelar pelo novo, mas sem se estandardizar?

Assim admirei esta região como foi pretexto para apreciar a sua gastronomia, na diferença e qualidade, ainda à moda das nossas avós, com fumeiros e grelhados de bucelas, salpicão e presunto de porcos alimentados de bolotas, carnes de cabrito esponado, maranhos, queijos e frutas naturais, de que se faz pregão no sentido de aproveitar sinergias complementares.

Vi ainda estâncias e casas de velha traça restauradas, postas ao turismo rural, como reservas de lazer, enquadradas num cenário de montanha emoldurando de vidro a pintura, com pérgulas de verdejante e bancos, bambus, cedros, magnólias, tílias, castanheiros e piscinas no meio de flores e fragrância. Lembro de modo especial da Quinta de Santa Terezinha, no Cabeçudo, de reminiscência eclesiástica, património do Padre Farinha, adquirida pela empresa Santos e Marçal, que, transformada, se tornou num verdadeiro oásis de lazer e sossego, ainda com a residência abacial, com sete quartos, reconstruída na traça original do século passado.

Muitos destes complexos se vêem por esse Portugal fora. Alguns, ao serviço do turismo, os melhores espécimes da Europa, que nos podem abonar nesta vertente, embora tenham proliferado outros, nem sempre com o melhor gosto e requinte, por interesses estandardizados ou de ganância desenfreados.

Será esta a aposta para um outro Portugal? Mas será isto o suficiente?!…




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