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O barco do aborto

A vinda do barco, com aquelas finalidades, não deixa de ser, em minha opinião, um deplorável atrevimento. É como querer mandar na casa do vizinho

N/D
9 Set 2004

É verdade. Cá está outro a discordar, mais uma vez, do barco do aborto.

Pois é. Se os que patrocinaram a sua vinda nos massacram constantemente a querem legitimar a sua presença, porque não havemos, com idêntica persistência, de denunciar o atrevimento que, em nossa opinião, isso representa? Se uns não desanimam na defesa da morte, porque havemos de deixar de proclamar o direito à vida?

Os factos são conhecidos. A organização holandesa Women Waves, fundada em 1999 por Rebecca Gomperts, quis atracar um barco junto da costa portuguesa, a fim de ajudar mulheres portuguesas que queiram praticar o aborto até às seis semanas e meia de gravidez.

A fim de iludir as leis portuguesas os promotores da iniciativa propõem-se levar as interessadas para fora das águas territoriais portuguesas a fim de lhes ser aplicada a lei holandesa, mais permissiva do que a nossa. Propõem-se também divulgar informação e aconselhamento sobre educação sexual e planeamento familiar.

A vinda do barco aconteceu a convite de quatro organizações portuguesas que defendem a des-penalização do aborto.

Estou persuadido de que nesta matéria há quem ande a brincar com coisas sérias, o que pode vir a ter – e já tem – consequências muito graves.

Tudo consiste em saber se o que existe no ventre da mulher, após a fecundação, é ou não um ser humano. Está demonstrado que sim. Se o é, tirar-lhe a vida propositadamente é matar. É praticar um crime de infanticídio. Quer lhe chamem aborto quer venham com o eufemismo da interrupção voluntária da gravidez. E se é crime matar em terra um ser humano e indefeso, o facto de a morte acontecer fora das águas territoriais portuguesas não faz com que deixe de o ser. E se há leis que permitem que isso aconteça, tais leis são iníquas.

A vinda do barco, com aquelas finalidades, não deixa de ser, em minha opinião, um deplorável atrevimento. É como querer mandar na casa do vizinho.

Não resisto à tentação de perguntar que interesses estarão por trás de tudo isto. Questões meramente humanitárias? Questões ideológicas, inseridas na luta contra os valores tradicionais? Razões de ordem económica?

Sejam quais forem os motivos, parece-me que a vinda do barco, com aquelas finalidades, é totalmente descabida. Se querem de verdade apoiar a comunidade portuguesa, porque é que os responsáveis pela tal clínica flutuante não entram em contacto com os nossos governantes e não vêm ajudar-nos a resolvermos o problema das listas de espera nos hospitais? Porque é que o seu potencial não é colocado ao serviço da vida das pessoas doentes em vez de ser posto ao serviço da morte de crianças inocentes e indefesas?

Vem em missão de informação e aconselhamento sobre educação sexual e planeamento familiar. E faz falta vir um barco da Holanda ministrar esses conhecimentos? Não há entre nós pessoas mais que capazes de se desempenharem dessas tarefas? Não existem já instituições e serviços para, nessa matéria, informarem devidamente os portugueses? Não será verdade que, dada a forma como se fala de sexualidade e a discutível distribuição de preservativos, hoje só engravida quem quer?

A liberalização da prática do aborto não virá fomentar a irresponsabilidade? Não será, em última análise, uma forma de instrumentalizar a mulher? Vertem-se lágrimas pelas vítimas do terrorismo. Defender e apoiar a prática do aborto não consistirá em defender e apoiar uma outra forma de terrorismo?

Em vez de ajudar as pessoas a abortarem o que importa é reforçar as medidas de apoio à maternidade e à criança. É proporcionar aos casais a possibilidade de terem filhos, de os criarem e educarem. É estimular a prática da paternidade consciente e responsável, numa sociedade que envelhece. É criar mais creches e jardins de infância para que os pais tenham onde deixar tranquilamente os filhos durante as horas de trabalho.

A presença do barco tem os seus custos, e não são pequenos. Não seria mais vantajoso aplicá-los em medidas destinadas a melhorar a qualidade de vida das pessoas?




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