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Aonde desce o coração

Quanto mais os analistas explicam menos se entende. Há, na profundidade do ser humano, espaços impenetráveis de aviltamento. E de nobreza, que apenas a dor sabe exprimir

N/D
9 Set 2004

Todos os dias nos chegam vagas do outro lado do mundo. Algumas são meigas e estimulantes. Outras, talvez a maior parte, alterosas e agressivas, fazendo estremecer a nossa paz e acirrando o nosso medo. Longe e perto acontecem coisas a que o coração se vai habituando ou endurecendo de indiferença, até que evento mais forte nos acorde da letargia saturada de notícias.
Outras vagas se levantaram já, como que anulando as pegadas das crianças da Ossétia do Norte que assistiram, na abertura do novo ano lectivo, a um dos mais impressionantes massacres deste novo milénio. E nos deixaram a alma repassada de pasmo. Foram três dias de angústia, suspensa pelo imprevisível do desfecho, que se revelou mais trágico que qualquer projecção.

Existem por ali questões que importa não ignorar: restos de rancor da II Guerra, desespero de independentistas, confusão fanática entre meios e fins, tempo e eternidade, martírio e suicídio, insignificância da vida e das vidas, face a ideais tidos como superiores ou mesmo sobrenaturais. E também não se deixa de fora alguma inabilidade na gestão desta tragédia na fronteira da morte. E, possivelmente, outros segredos que nunca serão revelados, para além dos que o tempo e a distância ajudarem a clarificar.

Mas há uma reflexão mais que técnica, estratégica ou política que importa trazer ao de cima: a face humana de quem ataca, e a de quem não tem, como as crianças, capacidade para argumentar ou se defender. Como o holocausto de Auschwitz ou os campos de concentração da Sibéria – dois exemplos óbvios de perversidade -, o que agora aconteceu em Beslan tem dimensões satânicas de pecado organizado e inteligentemente conduzido.

Dificilmente acreditamos que homens e mulheres, alguns pais e mães, possam encontrar no coração espaço disponível para projectos tão aviltantes como o massacre de uma cidade inteira com tamanha violência sobre as crianças. Quanto mais os analistas explicam menos se entende.

Há, na profundidade do ser humano, espaços impenetráveis de aviltamento. E de nobreza, que apenas a dor sabe exprimir. O Livro da Sabedoria tem razão: «mal podemos compreender o que está sobre a terra e com dificuldade compreendemos o que está ao alcance da mão…»

Nunca pára de nos questionar a profundidade do mistério da vida…




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