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Recordar o Dia Internacional da Alfabetização

Celebra-se hoje o Dia Internacional da Alfabetização. É um dia, entre outros, instituído pelas Nações Unidas e destinado a alertar para o problema da iliteracia no mundo.

N/D
8 Set 2004

Nos países ocidentais e do dito primeiro mundo esta luta parece uma batalha já ganha, pois atingiram-se, sobretudo, a partir da Segunda Guerra Mundial, níveis de alfabetização superiores a 90%, ou mesmo perto dos 100%, como é o caso dos EUA, Europa e Japão.
Em Portugal tem-se descurado a alfabetização da população, principalmente das pessoas pertencentes a idades superiores a 50 anos e provenientes dos meios rurais e do interior do país.

Esta campanha de pôr os portugueses a «ler, escrever e contar» começou com a implantação da República, em 1910, com a criação da rede nacional de escolas públicas e com a obrigatoriedade de estudar. O Estado Novo continuou esta campanha, com a construção de escolas (todas iguais ou muito parecidas) um pouco por todo o país, e obrigando à obtenção do 1.º grau (4.ª classe).

Com o advento da Democracia, esta tarefa foi continuada e fortemente impulsionada com a construção, não só de escolas primárias, mas de todos os níveis de ensino, nas sedes de concelho e posteriormente nas freguesias densamente povoadas. O ensino obrigatório passou dos 4 anos para os 6 e, nos finais da década de 80 e inícios de 90, para o 9.º ano de escolaridade. Agora fala-se de este ser obrigatório até ao 12.º ano.

Uma das novidades dos últimos 30 anos foi a universalização do ensino e da sua gratuidade, fazendo com que milhares de alunos se graduassem e obtivessem graus de ensino superior. O erro foi querer construir um país de doutores e de engenheiros.

O fosso entre os que não sabem ler nem escrever, os que possuem o nível básico e os licenciados, aprofundou-se e criou uma espécie de «nova aristocracia».

Se com a República o «dom» e os títulos nobiliárquicos foram abolidos, com a universalização do ensino superior passou-se a querer obter, também por via monetária (como os barões e viscondes do século XIX, ao jeito de Garrett) o título de doutor, vulgo «dr.».

Passou-se a perguntar como se quereria ser tratado, se era doutor ou engenheiro. Até o pormenor de colocar na lista telefónica, nos cheques e outras coisas a nova chancela.

Com toda esta barafunda, de ser licenciado, de colocar os filhos a estudar, de o Estado conseguir abrir vagas para o número de estudantes, da colocação e concursos de professores, esqueceram-se os milhares (cerca de 10% dos portugueses) que não sabem ler uma letra sequer.

Jesus de Nazaré bem ensinou: «não chameis a ninguém nem pai nem mestre (doutor), pois um só é o vosso Pai e um só é o vosso Mestre, o Pai do Céu». O rabi de Nazaré bem pregava contra os doutores da Lei e escribas que oprimiam o Povo de Deus, com regras e prescrições. Por isso, falava com simplicidade e em parábolas para que a gente simples e humilde entendesse a sua mensagem de amor e perdão.

Recordo-me com saudade de uma senhora cujo seu maior desejo era saber ler, mas devido à dureza da vida teve de começar a trabalhar muito cedo. Quando caiu no seu leito de dor e eu lhe ia fazer uma visita, pedia-me que lhe lesse a Bíblia ou a vida dos Santos, pois não sabia ler. Ficava muito agradecida e chorava de comoção ao escutar aquelas palavras.

É altura de se promover uma campanha de alfabetização, visto até possuirmos recursos humanos suficientes, devido a existirem muitos professores desempregados.

Há que promover cursos, nas juntas de freguesia, centros sociais e paroquiais, lares e centros de convívio, para que muitas pessoas possam, pelo menos numa parte da sua vida, ser autónomos e capazes de procurar a leitura, talvez como forma de passar os tempos livres que muitas vezes lhes sobejam.




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