Fotografia:
796. Meu caro Leitor:

Como o prometido é devido (salvo para a maioria dos políticos), eis-me de regresso aos papéis, a estas conversas semanais, aqui. E, frente ao ecrã em branco, o teclado ainda inerte, aguardo, pacientemente, qual beduíno dos desertos em demanda do oásis, uns sinais, umas ideias que, através dos dedos, se vão transformando num POSTAL.

N/D
8 Set 2004

E elas, borbulhando, aí estão como cerejas e em tropel (as férias no fim, o regresso ao trabalho, ao ramerrão das máquinas, dos balcões, das secretarias, dos asfaltos, a vergonhosa saga da colocação de professores…), o teclado soando e as palavras emanando no ecrã, em filas ordenadas e disciplinadas! Assim se faz, como um pintor uma tela ou um pedreiro uma parede, um POSTAL!
Num mundo de pequenas e grandes coisas, o Governo, tão contestado pelas oposições, lá vai com medidas de fundo, sem medidas de fundo, gerindo um quotidiano de miséria, pessimismo, comodismo e miserabilismo, porque não temos, obviamente, diamantes, nem ouro, nem petróleo! E, como não podia deixar de ser, encostados estamos a uma Europa onde os ricos esmagam os pobres e deles se servem para que consumam, com subsídios, o que eles produzem em excesso!

Santana Lopes (primeiro-ministro páraquedista, mas com guarda-costas até dar com um pau), por entre escapadelas ao real mundo do faz-de-conta, contra ventos e marés de crise atrás de crise, desânimo após desânimo, desesperança atrás de desesperança, lá vai tangendo o barco.

Mesmo, caro Leitor, sem terra à vista, é certo, mas com vento brando e mar bonançoso, passe o enjoo dos ministros a requererem carros novos e de luxo e a vaga alterosa de nomeações que fazem, o homem do leme (onde é que eu já ouvi isto?) tem ainda um tempo para curtir sóis e namorar estrelas! Bonito!

Todavia, na praça pública, sente-se o país abatido, vencido pela cultura da indiferença e do descrédito que por aí se instalou e reflecte nesta realidade, mais nua que crua, de que a República agora até tetas tem para os acompanhantes dos deputados que, ao seu serviço, se deslocam ao estrangeiro!

A legislação anterior falava em cônjuge, mas como nem todos satisfazem esta premissa, a nova legislação permite ao deputado fazer-se acompanhar por qualquer pendura, seja um vizinho, um primo, uma mulatona brasileira!

Pois é, caro Leitor, podíamos ser um país, não digo rico, mas remediado, sem fartura, claro, mas, sobretudo, sem miséria! Um país onde houvesse o necessário para todos!

E não era difícil: bastava que aqueles que têm muito, demais, se dispusessem a repartir, a colaborar (criando empregos, aplicando capitais, pagando impostos…).

Mas, tristemente, parece que estamos fadados por estas inexoráveis assimetrias: de um lado os muitos muito ricos, do outro os muitos muito pobres; de um lado os que pagam impostos, do outro os que fogem ao fisco; de um lado os que constroem riqueza, do outro lado os que a esbanjam!

O que, ao longo da História, se repetindo, se fadando vai! Por exemplo, já tivemos um Império (ouro, pimenta, cravo, canela, seda e marfim), abanámos a árvore das patacas do Brasil, desbaratámos as remessas dos emigrantes numa guerra de 13 anos em África, consumimos subsídios europeus em carros, amantes e charutos e… a miséria lá está, a pequenez nos devora sempre! Até nem gastar sabemos!

Perdoa-me, caro Leitor, a insistência nestas tristes realidades históricas, mas elas marcam a idiossincrasia do povo que temos sido, do povo que ainda somos! Que tanto é grande, como pequeno; que tão capaz é de enormes feitos, como de vis cometimentos (o comportamento honroso da selecção de futebol no Euro-2004 versus o, a todos os títulos ignóbil, da selecção nos Jogos Olímpicos).

Pensando bem, o que me aflige, o que me dói é a postura da maioria dos políticos que pouco ou nada se interessam pelos reais problemas do país, pelas suas carências vitais, por nós! Políticos que, pelo que fazem ou deixam de fazer, mais que todos os responsáveis são pelo estado de apatia, comodismo, conformismo e pessimismo a que chegámos!

Como da recente atitude de Durão Barroso se infere. Então, se ele era tão bom político, se tinha o país a recuperar, a sair de crise, por que foi para Bruxelas? Onde é que ele era mais preciso, mais útil? Lá ou cá? A isto se chama, em linguagem popular, xenofilia de caserna que leva a que se troque o arado e as leiras nacionais pelos cadeirões e cifrões de Bruxelas!

Obviamente que é por estas e por outras que não saímos da cauda do pelotão ou nele, só pelas piores razões, somos os primeiros: alcoolismo, sinistralidade rodoviária, analfabetismo, pobreza!

Todavia, como diria o Francisquinho: o futebol aí está e enquanto o futebol vai e vem… os políticos lá se governam!

Com um abraço e até de hoje a oito!




Notícias relacionadas


Scroll Up