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Declínio do Ocidente?

No regresso de férias, um tema inevitável é a algazarra acerca da chamada «colocação dos professores». O espectáculo é totalmente absurdo, porque o próprio tema é absurdo.

N/D
7 Set 2004

As escolas – cada escola – deviam tratar da contratação dos seus próprios professores. O sistema centralizado que temos – talvez inspirado no «modelo soviético» – só pode produzir os resultados que todos os anos se repetem. Com medo dos sindicatos e da Comunicação Social, todos os governos mantêm o sistema. É muito edificante.

Outra telenovela curiosa é a do chamado “Barco do Aborto”. Os noticiários não falam de outra coisa. Na TSF, um repórter, que visitou o barquinho, dizia que «apesar das dificuldades, o ânimo é elevado». Não duvido. Uma mulher da tripulação até dizia «we are having fun».

Apetece perguntar, como Zita Seabra no “Público” de domingo passado, por que não vão «to have fun» para a Argélia, ou a Arábia Saudita, ou o Irão, ou outros países islâmicos, onde as mulheres são obrigadas a casar com maridos que não conhecem, ou condenadas à morte por apedrejamento, acusadas de adultério?

Não, isso o “Barco do Aborto” não faz. Porque isso seria fundamentalismo cristão: impor aos militantes islamitas, explorados e oprimidos pela globalização e o capitalismo, os padrões ocidentais. Isso é o que fazem «o Bush» e «a extrema-direita americana», como não se cansam de repetir os noticiários.

É deliciosa esta reminiscência do PREC, em que todos os que não eram pela «revolução» eram «fascistas». E lá marcham eles, com o cão, o gato e o periquito, contra «o Bush». Desde o saudoso Ronald Reagan, nenhum outro Presidente americano tinha o privilégio de reunir tanta tropa fandanga contra si.

Entretanto, só no dia de quarta-feira passada, os jornais noticiavam: 12 reféns nepaleses assassinados no Iraque por um grupo islâmico; 16 civis israelitas mortos e 90 feridos em dois autocarros atacados por «kamikazes» palestinianos; 8 civis moscovitas mortos e 25 feridos por «kamikazes» tchetchenos, numa estação de Metro do centro de Moscovo; e mais de 100 crianças reféns também por terroristas tchetchenos.

Uma semana antes, dois aviões de passageiros russos tinham caído, devido a ataques terroristas reivindicados por um grupo islâmico tchetcheno; um jornalista italiano fora raptado e liquidado no Iraque; e, na data em que escrevo, ignora-se ainda o destino dos jornalistas franceses também raptados no Iraque.

Winston S. Churchill costumava dizer que uma distinção do Império britânico residia na segurança que o Governo de Sua Majestade garantia aos súbditos – onde quer que se encontrassem. Quem se atrevesse a tocar num súbdito britânico, em qualquer parte do mundo, sabia que o longo braço da Armada Real cairia sobre ele. Essa era a melhor garantia de paz – e alguma decência – num mundo por natureza instável.

O contraste entre essa época e a actual dispensa comentários. Alguém falou em declínio do Ocidente? Os noticiários vão apressar-se a explicar: só se foi «o Bush» e a «extrema direita americana». Vamos lá voltar à colocação dos professores e ao «Barco do Aborto». E não perca, já a seguir, a nova edição do «Big Brother» – com sexo em directo.




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