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O barco da morte

Deixaríamos o barco da morte entrar, se fôssemos governo, sem o deixarmos, porém, violar as leis portuguesas, nem desrespeitar o referendo sobre o aborto, em Portugal

N/D
6 Set 2004

O barco do aborto ganhou em toda a linha. Ao ser-lhe negada a entrada em águas territoriais criou um protagonismo que lhe estaria ausente se tivesse aportado com naturalidade.
Torna-se-nos evidente que a sua vinda a Portugal foi uma provocação e uma directriz premeditada com a intenção de levantar, uma vez mais, a problemática do aborto em Portugal. E ganharam o desafio.

Desde as declarações teatrais de Odete Santos, ao dramatismo enfático da voz de Francisco Louçã, passando pelas opiniões de uns tantos líderes de opinião pública, todos contribuíram para que o dossiê do aborto fosse reaberto em Portugal. Andou mal o governo em tornar fundamental uma acção que poderia não passar de uma mera circunstância. Sobre o aborto, já aqui expressamos, em devido tempo, a nossa opinião e aqui a reiteramos para que não deixe dúvidas: somos pela vida.

A vida é um constante projecto de futuro; se for interrompido, pela morte, por exemplo, não se concretizará. O aborto é, no mínimo, a interrupção dum projecto de vida. Acompanham-me nestes conceitos, como sempre, a razão, os princípios e o destemor.

A razão pelo raciocínio lógico, os princípios pela educação humanista de base e o destemor pela fidelidade à verdade. Incluí mais uma vez no meu séquito um terceiro companheiro, velho de sempre, amigo doutras lutas e sempre leal, a dignidade humana.

Qualquer um destes princípios possuem convicções fortes de um só querer, que sabem manter a sua lealdade no seu todo, não porque receiem faltar ao prometido mas porque não temem comprometer-se para o respeitar. São senhores do nosso passado, presente e futuro que não se deixam dominar pela vontade de outrem, nem tomar pela emoção, nem se acobardam com as sombras do medo, nem são vencidas pela fadiga da persistência alheia, nem pela indiferente das correntes maioritárias, e nem sequer sabem recuar perante os obstáculos.

Nunca nos aconselham: não escrevas sobre isso, porque te pode ser prejudicial. «Só os medíocres são populares»: foi assim que o li e ao longo da vida senti este pensamento de Alguém que em vida nunca o fora. Um tal tipo de pensamento é reconhecível pela energia que delas emana. Por isso, o barco da morte, a que chamam barco do aborto, causou tanta excitação e perturbação. Excitam-se as televisões.

Por falta de convicções profundas sobre o aborto, o PSD, perturbado, (desorientado?), veio dizer-nos que se encontrará disponível, na próxima legislatura, para uma nova consulta popular, um novo referendo sobre o aborto. Toda a opção política que oscila ao sabor das circunstâncias não merece o nosso respeito. Os que vivem de ocasiões não nos merecem senão repúdio e desconfiança.

Quando não confiamos em alguém, isso quer dizer, em regra geral, que essa pessoa é perigosa, e a sua natureza não está ao alcance do nosso contentamento ou satisfação.

A proximidade, a nossa proximidade, é um espaço que reservamos para os eleitos. É o desconhecido PSD que se nos revela depois de conhecido PSD que nos apavora e acaba por cavar fossos intransponíveis. Mais uma orfandade. Gostamos imensamente mais das árvores que morrem de pé, tipo Álvaro Cunhal.

Mostram carácter. Sabem morrer como souberam viver, como disse em teatro a saudosa Laura Alves: de pé. Reconhecer isto é estar em harmonia com o tempero da dignidade humana que a todos é devida por inteiro.

Deixaríamos o barco da morte entrar, se fôssemos governo, sem o deixarmos, porém, violar as leis portuguesas, nem desrespeitar o referendo sobre o aborto, em Portugal.




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