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Com… tradições

O chavão de que as empresas públicas não são para dar lucro não passa de um argumento saloio,descabido e só quer esconder a incapacidade de se gerir com eficácia.

N/D
4 Set 2004

Reacendeu-se a polémica dos altos salários de uns tantos quadros superiores a trabalhar na função pública. Agora é um caso na Câmara Municipal do Porto, se bem que no meu ponto de vista o móbil e o alvo da questão é o próprio presidente e não referido gestor.

Esta nova polémica veio-me avivar a memória daquele caso do gestor contratado ao BCP pela ex-Ministra das Finanças, para pôr a funcionar a máquina fiscal. Sem dúvida e é visível que esta máquina se encontra enferrujada e corroída por anos e anos de imobilismo e por uma visão estratégica anacrónica do “laissez faire, laissez passer” e que bem precisava que houvesse alguém capaz de a pôr operacional.

São sempre vinte e cinco mil euros por mês que estão em questão e não a competência do referido gestor. Este salário, de facto, rebentou a escala do funcionalismo público e parece ser uma afronta descarada aos salários das primeiras figuras do Estado. É um precedente que merece ter uma solução cuidada e bem explicada, de forma a causar o mínimo de estragos possíveis nas débeis relações entre instituições públicas e partidos.

Um verdadeiro escândalo, diz a Oposição. Um acto de coragem, de sensatez e de realismo, diz o Poder. O povo na sua sabedoria milenar diz que “cego é aquele que não quer ver”. Este aforismo tem toda a propriedade de se encaixar na argumentação da ex-ministra Manuela F. Leite na aquisição deste técnico superior, dado que temos um sistema de tributação de contribuições e impostos paralisado, atafulhado e incapaz de responder a uma so-ciedade que não é nada permeável ao cumprimento das suas obrigações fiscais.

Tomemos como exemplo comparativo o caso da TAP. Com gestões nomeadas pelo partido do poder, esta grande empresa nacional, durante anos a fio, esteve mergulhada numa enorme crise financeira, temendo-se mesmo o seu colapso e daí o desaparecimento. Não podemos esquecer que nesta empresa foram injectados larguíssimos milhões de contos pelos sucessivos governos, dinheiro do erário público e que muita falta fazia noutros sectores, como forma de a tornar viável, competitiva e apetitosa a uma possível e desejável privatização. Nunca se esperaria que produzisse lucros, mas que, ao menos, o défice estabilizasse. Até que, num momento de lucidez, tomou-se a decisão acertada e sensata de se escolher uma gestão tecnicamente competente, experiente, bem paga e que fosse capaz de fazer o retorno dos grandes capitais investidos. O certo é que, com a nova equipa, baseada numa gestão profissional e altamente qualificada, a TAP soube contornar todas as dificuldades e superou os próprios objectivos previamente estabelecidos. E o mais interessante do caso é que se instituiu na empresa a sempre necessária e fundamental paz laboral.

Gestores e trabalhadores deram as mãos e caminharam no sentido da recuperação económica e financeira. A TAP era um “elefante branco” e conseguiu virar a página dos fracassos sucessivos, em que deglutia todo o tipo de investimento, e tornou-se numa empresa de sucesso e com grande visibilidade internacional. Valeu a pena apostar nos bons salários, na competência e na qualidade do trabalho em equipa.

Tomemos outro exemplo. As empresas municipais deste país são geridas por gente de cor partidária, normalmente sem perfil, sem habilitações académica, técnica ou profissional. São pessoas que não percebem nada de gestão ou administração. Mas mandam e comandam, de forma amadora, descaracterizada, os destinos dessas empresas que, por vezes, tinham todas as condições para serem empresas de sucesso e com enorme impacte social, tornan-do-as, pelo contrário, num fardo pesado para os cofres do município, quantas vezes já debilitados. Os resultados são óbvios e, por isso, não carecem mais de quaisquer comentários. Todos os que se fizessem eram, por certo, negativos. Em jeito de desabafo, posso adiantar que, se fossem empresas minhas, gestores desse tipo não os queria nem a custo zero. Nem eles próprios e nem ninguém. Nesta linha de pensamento o chavão de que as empresas públicas não são para dar lucro não passa de um argumento saloio, descabido e só quer esconder a incapacidade de se gerir com eficácia.

Posto isto, não se percebe bem a grande celeuma política que causa a contratação de técnicos competentes e qualificados, com provas dadas para liderar os sectores importantes e decisivos do Estado, a não ser que possa colidir com os interesses instalados dos “boys” que não querem perder o seu lugar ao sol.

É preciso deixarmos de ser tão provincianos nas nossas apreciações e aceitar que os melhores têm que estar nos lugares de decisão, de comando, e serem premiados, mesmo que isso esbarre com conceitos arcaicos de trabalho igual, salário igual, ou de pressupostos ingénuos que só servem de arma de arremesso aos partidos políticos para mostrar serviço junto do eleitorado. Também é preciso colocar gente capaz e competente, com provas dadas de gestão, nas empresas municipais ou noutros serviços do Estado, em detrimento dos filiados dos partidos.

São estas algumas das contradições de um regime democrático, de cariz tradicionalista, que muitos não aceitam, não entendem, criticam e que causam um alheamento dos cidadãos cada vez mais consciente pela política e pela coisa pública.




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