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O culto da facilidade

Há anos que assistimos a uma tremenda onda de desastres, nas estradas de Portugal.Desgraças idênticas se verificam, embora em escala de menor dimensão, nas praias do litoral e nas montanhas do país.

N/D
3 Set 2004

Diversas medidas de precaução e de aviso têm sido tomadas, por quem de direito, não tanto para evitar o fenómeno na totalidade, por impossível, mas ao menos para lhe diminuir o número.

Tudo em vão.

O português gosta de facilitar perante o risco da velocidade, é temerário defronte da onda e pouco se acautela com o lume à beira da estopa.

Por isso, em cada ano que passa, o número de sinistros, em vez de diminuir, aumenta e o risco de vida pessoal é cada vez mais ameaçador.

Esta triste sina portuguesa merecia um estudo apropriado, para indagar as causas que lhes estão subjacentes, porque com multas não vai lá.

Quanto a mim, o culto da facilidade, característico do temperamento lusitano, está na base deste fenómeno.

Para o português tudo é fácil, tudo se resolve em cima do joelho e o mal só bate à porta do vizinho.

Só com a casa ardida e roubada é que pensa no seguro e na tranca e só quando troveja é que reza a Santa Bárbara.

Não sou psicólogo nem perito nestes assuntos. Todavia, como cidadão que anda na estrada, que vai à praia e passeia no monte, gostaria de contribuir para a solução destes holocaustos nacionais.

A meu ver, estamos perante um fenómeno que, mais que pessoal, é colectivo e característico do modo de ser do homem português, que em tudo facilita, nunca se precata e julga que as coisas más só sucedem aos outros.

Depois, perante a gravidade dos acontecimentos, ou se encosta à resignação do «tinha que ser» ou, em casos de menor gravidade, recorre ao «pedido de desculpa» e parte-se, sem demora, para outra.

O «pedir desculpa» está na moda.

É uma espécie de pára-raios que abriga e protege os culpados, embora nada resolva.
Pelo contrário, cria o uso e facilita o abuso.

– Um desportista vai aos Jogos Olímpicos ou à Taça da Europa e, porque anda por lá a apanhar bonés, provoca o fracasso.

Perante a indignação dos adeptos, que lhe pagam os chorudos ordenados, «pede desculpa» e… tudo continua na mesma.

– O motorista, por desleixo e arrogância, provoca desastres graves na estrada. A carta é-lhe detida mas, passado algum tempo e ressarcidos os danos, é «desculpado» e volta à estrada para conduzir da mesma forma e jeito.

– O incendiário acha interessante ver a floresta a arder e divertida a azáfama dos bombeiros a apagar incêndios.

É apanhado e, em lugar de ficar pelo menos sazonalmente detido, surge a «desculpa» de abalos mentais e fica à espera de outro Verão, para repetir a proeza.

– O banhista manda às malvas a digestão, as bandeiras, os avisos do banheiro e, engolfinhando-se nas ondas, naufraga…

Se o salvam, «pede desculpa» pelo incómodo e, no ano seguinte, vai a banhos repetir os mesmos desleixos.

E, de desculpa em desculpa, vamos andando, de desastre em desastre.

Enfim, é o «culto da facilidade», na máxima expressão.




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