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A casa sobre areia ou a prioridade à educação

A educação é o mais premente problema moral dos tempos que correm e dela depende o futuro e a humanização da sociedade. Com a educação cria-se cultura humana. Não ver isto e não agir em consequência é muito grave e de consequências desastrosas

N/D
3 Set 2004

Noticiaram os jornais diários e a TV que o vencedor do primeiro “Big Brother”, um jovem alentejano de Barrancos, de nome José Maria, vedeta nacional que foi durante uns meses, tentou há dias o suicídio. Não consumou o seu gesto, porque a Brigada de Trânsito chegou a tempo de evitar a tragédia. Depois continuou ainda a ser notícia.
Surgiram logo explicações de diversos quadrantes. Falou-se da dificuldade sentida ao passar, rapidamente, do anonimato ao estrelato, para regressar depressa e de novo ao anonimato; disse-se que estava em dificuldades financeiras porque o meteram em negócios que não resultaram; que se tinha deixado levar por mulheres e por um tal empresário, que lhe levaram tudo; que tivera de trocar o apartamento de luxo por uma casa modesta…

Só a mãe não ficou surpreendida e falou do pressentimento que a acompanhava de que as coisas iam correr mal. Ele, porém, não quis dar a ninguém as razões que o levavam ao suicídio. Foi parar, para já, ao hospital e depois ao psiquiatra.

Na altura do programa que provocou o pico das audiên-cias, porque outra coisa não pretendiam os senhores da estação televisiva, não faltou quem alertasse para estes e outros possíveis resultados, mais que previsíveis num tal contexto. Mas não houve coragem para enfrentar o monstro e este só pretendia gente capaz de se deixar tentar pela fama e pelo dinheiro.

O ambiente social, para que nele proliferem os explorados e os exploradores, está cada vez mais aberto e desguarnecido. Governantes e políticos andam preocupados com outras coisas, o povo quer “pão e divertimento”, as vozes denunciadoras e discordantes ou são consideradas retrógradas ou caladas por inconvenientes.

É neste contexto de vazio ético que se desenvolvem os que deitam mão a tudo que permita conseguir os seus objectivos e se sentem mais estimulados para entrar na avidez de lucro sem trabalho os menos amadurecidos. O ecran televisivo é um grande tentador. É bom aparecer lá, mesmo que só para dizer ou fazer disparates.

Tudo isto tem a ver com a cultura e a educação reinantes e as propostas que sobre elas se fazem. A gente que pensa, assim o diz. Os que mandam, falam de prioridade à acção educativa. Porém, o ambiente geral está cada vez mais saturado de lixo e mais batido por ventos contrários a uma cultura tomada a sério. Prometem-se êxitos sem esforço, premeia-se a ignorância com sorrisos, sugerem-se portas traseiras para alcançar os salões vazios, volta-se de pés para o ar a escala dos valores que ainda subsistem.

A educação é o mais premente problema moral dos tempos que correm e dela depende o futuro e a humanização da so-ciedade. Com a educação cria-se cultura humana. Não ver isto e não agir em consequência é muito grave e de consequências desastrosas.

Casos como os que levam a esta reflexão repetem-se e multiplicam-se pelas razões mais diversas. Deixam, apesar disso, insensível muita gente responsável, como pais, professores, outros educadores, governantes e políticos, gente da comunicação social.

As crianças e os jovens parecem valer cada vez menos.

Gerar projectos novos pressupõe uma reflexão séria e se-rena sobre a realidade e exige a conjugação dos esforços de quantos ainda acreditam que o caminho da sanidade moral e social passa pela educação, mesmo que os resultados só se verifiquem a longo prazo.

Mal vai a todos nós se a reflexão sobre o presente, com as suas capacidades e desvios, não convida a projectar um futuro dignificante para as pessoas e sadio para a sociedade.




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