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No dealbar da esperança

Falta sermos mais ambiciosos, ou ter aspirações nos domínios que nos escasseiam, que seriam a grande mola para nos impormos sem vaidades, caprichos ou rivalidades, desde que mais conscientes do muito que nos falta

N/D
1 Set 2004

Se é sempre Outono o rir das Primaveras, Castelos, um a um deixa-os cair… Que a vida é um constante derruir De palácios do Reino das Quimeras! (Florbela Espanca, in Ruínas)
Estes versos em epígrafe poderiam resumir uma viagem-relâmpago a este torrão natal.

Sempre axadrezado com novas sensações e impressões, luzes e sombras, assim deixa qualquer turista confundido no feérico balofo e na fantasia, após um Euro que nos envaideceu ate às costuras, mas nos deixou decepcionados e deslumbrados sem vitórias…

A viver de fogachos efémeros, ainda tive ocasião de ver as bandeiras com castelos plagais de fabricação chinesa, em muitas janelas, índice de um nacionalismo que, penso, não será só para os melhores dias. Mesmo assim, assisti a girândolas políticas e a fogos cruzados de politiqueiros e poetas-deputados, que bem seria melhor recolherem-se a penates ou gozar no lazer os louros de mal merecida reforma pelos serviços prestados ao País.

Tudo parece correr às mil maravilhas e só os incautos, pessimistas ou mal intencionados, poderão vislumbrar a crise num País, a ombrear com os mais ricos e condutores a galgar em autênticas “bombas” pelas auto-estradas, a nível dos luxos europeus, apesar dos desempregados a crescer.

Pode-se dizer que se deixou o miserabilismo de antanho. Os portugueses regorgitam de entusiasmo, enquanto courelas abandonadas, sem gados nem pastos e florestas incandescentes são a contradição de hipermercados a abarrotar de tudo que chega da estranja…

Não se notam muito os emigrantes, talvez mais os imigrantes…, como pedintes por todo o lado, a enxamear um País que os recebeu, explora e esquece por falta de estruturas sociais que lhes proporcionem melhor acolhimento. Mesmo assim são apreciados nas suas qualidades de trabalho e estendem longe o nome de Portugal como nação que os recebeu e treinou para triunfar no atletismo nas Olimpíadas de Atenas, caso de Francis Obikwelu. Servirá isto de motivo para termos mais consideração pelos que acolhemos e aí encontraram a sua segunda pátria?

Seremos mais sensíveis aos que recebemos ou nos visitam, já que nem sempre temos sido pelos que nos deixaram?! Construímos assim castelos e palácios, nem que seja com pedras e cal, carne dos outros, envergonhando-nos das pernas que idolatramos, campeões de nada e sem glória nas glórias, que perdemos ou substituímos por outras…

Será isto ser pessimista ou ter a consciência das fraquezas, que ainda ostentamos, apesar de tanto termos investido para as debelar? As infra-estruturas e auto-estradas que o País tem podem levar-nos para muito mais. Falta sermos mais ambiciosos, ou ter aspirações nos domínios que nos escasseiam, que seriam a grande mola para nos impormos sem vaidades, caprichos ou rivalidades, desde que mais conscientes do muito que nos falta, mas podemos ainda atingir.

Vi um País de ambições nos alunos, de vaidade nos pais, mas com a consciência nítida de fraqueza das nossas escolas, como viveiros, que lançam milhares de alunos para a vida, mas nem sempre munidos das armas e arcaboiço, que os podem defender.

Vi diplomados desempregados, que se agarram ao Estado como bóia de salvação, que investiram o melhor de si mesmo e empobreceram os pais, mas não têm saída profissional.

Vi outros ufanos, cheios de petulância pelintra ou engravatada, ciosos dos seus tachos, mas nem sempre conscientes do que significa a docência nos tempos que correm, ou do que significa moldar almas quando os corpos aparecem enfezados ou diminuídos.

Mesmo assim, tenho a consciência de um País novo, com um povo orgulhoso e cheio de esperança, mais em si do que nos seus valores, mas que dá passos largos relativamente ao futuro e é capaz de mais, se bem conduzido pelos que o governam. Assim o espero.




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