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Na peugada da riqueza e do desenvolvimento (1)

Em 1757, na Índia, o inglês Clive, ao serviço da Companhia das Índias Orientais, na sequência de uma vitória numa guerra punitiva contra um nababo local, arrecadou a título de indemnização, para si, para a companhia inglesa e para outras personagens, uma soma hoje equivalente a mil milhões de dólares

N/D
1 Set 2004

Agora que se aproxima o início de mais um ano lectivo, afigura-se-me oportuno reflectir sobre a importância da educação e do conhecimento para o desenvolvimento dos diferentes países, assim como recordar outras vias que no passado foram trilhadas na procura do enriquecimento pelas nações.

Hoje, no n.º 1, centrados na Europa, abordaremos o período decorrente desde finais da Idade Média até, sensivelmente, ao século XX, enquanto que no n.º 2 (Diário do Minho de amanhã), incidindo particularmente no caso português, nos remeteremos sobretudo para o período relativo aos últimos cem anos.

Podemos recuar até cerca de 1300, na Europa. A descoberta do relógio mecânico aguça os mecanismos da produtividade, os óculos alargam a longevidade dos artesãos dedicados a tarefas mais minuciosas (ver D. Landes in A riqueza e a pobreza das nações – por que são algumas tão ricas e outras tão pobres), o papel, produzido mecanicamente, difunde-se, o aperfeiçoamento da pólvora para fins militares prepara o curso para o imperialismo europeu nos próximos séculos.

Em meados do século XV, Gutenberg inventa a imprensa e, beneficiando da difusão “recente” do papel na Europa, alarga-se a partir de então, paulatinamente, mercê do embaratecimento do processo produtivo, a difusão do livro e do conhecimento.

O Renascimento encontra no papel e na imprensa poderosos agentes disseminadores das inovações e descobertas – nas ideias -, contribuindo designadamente para a reforma protestante, na ciência, na arte. A emulação entre os diferentes estados italianos, que favoreceu a grandeza da arte e do espírito renascentista naqueles territórios, estende-se a outros reinos europeus.

A crise do século XIV, associada a importantes inovações náuticas e à superioridade da marinha de guerra europeia, impulsionara os países ibéricos para a expansão ultramarina. No século XVI e XVII, outras potências europeias intrometem-se no exclusivismo ibérico e balanceiam-se para a construção de impérios rivais.

Os condicionalismos que propiciam a hegemonia europeia são vários, como se constata, mas de entre eles sobressaem as inovações técnicas, que permitiram produzir melhor, e a supremacia tecnológica, nomeadamente militar. Para esta supremacia científica e tecnológica europeia afirmou-se, pois, como indispensável o incremento do espírito científico e de pesquisa, o qual também hoje é relevado como uma preocupação primeira a reter pelos diferentes governos.

Com o iluminismo, no século XVIII, enfatiza-se a importância do saber e da educação para o progresso dos povos e das nações. Entre nós, o estrangeirado Luís António Verney com o seu Verdadeiro Método de Estudar emblematiza a importância que os intelectuais conferem ao conhecimento, a difundir pela educação, para o progresso das nações – e isto num tempo em que, como hoje, se discutiam as vias necessárias para o nosso país apanhar o ritmo dos países mais desenvolvidos do centro-noroeste da Europa. Estávamos, porém, num tempo (o século XVIII) ainda muito diverso do actual.

A preocupação dos governos assentava numa balança comercial positiva e mesmo no controlo do défice – como nos nossos dias, ajuizarão os leitores -, mas os meios para alcançar tal desiderato eram diversos e mais amplos do que aqueles hoje à disposição dos executivos.

Na idade moderna (1500-1800, aproximadamente) a exploração de recursos dos territórios colo-niais e o exclusivo comercial sobre os mesmos, o corso, a rapina ou a extorsão – em 1757, na Índia, o inglês Clive, ao serviço da Companhia das Índias Orientais, na sequência de uma vitória numa guerra punitiva contra um nababo local, arrecadou a título de indemnização, para si, para a companhia inglesa e para outras personagens, uma soma hoje equivalente a mil milhões de dólares – constituíram-se em meios que, a par do desenvolvimento das tarefas produtivas, contribuíam para a saúde financeira das nações europeias.

No século XIX, os avanços na industrialização (associada à técnica, à ciência, e também conectada com a educação) revelam-se como causa decisiva para o crescimento da riqueza e a afirmação das principais potências europeias, com as quais rivalizam outras emergentes noutros continentes, como os Estados Unidos ou, mais lentamente, o Japão.

A disputa de territórios coloniais continuará a despertar a cobiça das grandes potências europeias, estabelecendo-se como um dos proeminentes motivos para a Primeira Guerra Mundial, que deflagrará já no século XX (o envolvimento de Portugal nesta guerra assentou também, em grande parte, no interesse do nosso governo em defender, juntos dos aliados vitoriosos no final do conflito, a preservação das nossas colónias).

Recolocando-nos na área da educação, importa recordar que no século XVIII, e ainda durante muito tempo no Ocidente, convém acrescentar, os progressos almejados neste domínio equacionavam-se sobretudo no masculino, designadamente no respeitante aos direitos de cidadania que o acrescento de formação pudesse conferir (no curso da revolução francesa, embora num tempo de excessos, não deixa de ser sintomático que a “feminista” Olympe de Gouges, que publicara uma Declaração dos Direitos das Mulheres, como contraponto à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão anteriormente aprovada e que ignorava a conjugação dos direitos no feminino, acabasse degolada).

A provar que o presente encontra fortes raízes na História, constata-se que hoje, nos países do terceiro-mundo – onde, devido à pobreza, os direitos humanos em geral estão diminuídos -, a situação é particularmente grave igualmente no feminino.

Aí, muitas mulheres estão menorizadas face à lei em diversos países – designadamente muçulmanos -, mas também diminuídas pelo costume das mutilações sexuais, pela subjugação à prostituição e por um analfabetismo percentualmente mais elevado do que o observado para os homens.




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