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Professor também sofre

Alguns colegas meus de infância, que trabalham noutras profissões, várias vezes me perguntam, por falta de informação, se, pelo facto de leccionar no concelho de Famalicão, há 14 anos, o Ministério da Educação paga as deslocações que faço.

N/D
31 Ago 2004

Respondo imediatamente que estes encargos são suportados por mim.

Informo-os que se me desse ao trabalho de contabilizar as despesas que já fiz, ao longo destes anos, e comparando com colegas meus que trabalham em Braga (minha residência), veria o que não economizei em relação a eles.

Vem isto a propósito do necessário esclarecimento de muitas mentes que têm a ideia de que os professores ganham bem e são ricos. Quanto exagero!

Ao longo da minha carreira profissional – e já lá vão 29 anos – o sistema de colocação da classe docente foi sempre ingrato, forçando e obrigando muitos professores a permanecerem no seu local de trabalho, vários anos, bem afastados da sua residência natural e dos seus familiares.

Quantos, casados com colegas do mesmo ofício, passam vários anos afastados profissionalmente um do outro, pagando obrigatoriamente cada um deles a sua renda mensal, juntando a despesas da casa habitual, ou seja, três rendas mensais.

Certamente o vencimento de um será para cobrir estas despesas obrigatórias.

Pergunto: quanto economizam estes professores (casal)? Ou, melhor, quanto são obrigados a gastar? E os seus filhos, com quem ficam? Como são educados e acompanhados? E o que gastam, se alguém ficar com eles? Como se constrói ou solidifica, nesta situação, a família? E a sua vida sentimental e amorosa? Com tão e prolongado afastamento, conseguirão levar o barco a bom porto? Quantos divórcios se deram já, por tão ingrata situação?

Pergunto: ainda pensam que os professores são bem pagos? E que são ricos?

Certamente que não. Conhecendo esta real situação, tudo não passa de manipulação e grande equívoco.

Se juntarmos estas despesas às viagens de deslocação, à alimentação, vestuário (o professor tem que andar cuidadosamente vestido), despesas de livros, acções de formação, colóquios e seminários, e se estivermos a falar de um casal de docentes provisórios, cujo vencimento ronda 850 euros, pouco ou nada restará.

O que quer dizer que trabalham unicamente para a contagem do tempo de serviço, para terem possibilidade de concorrer e ser colocados mais próximos e efectivos (o que é hoje bastante difícil).

Conseguirão gozar férias? É bastante provável que não.

É mais que altura de o Ministério olhar para estas situações complexas, dispendiosas, já que só por amor à profissão é que se suporta tudo isto.

Era bom que, antes de atacar e julgar a classe, se informassem convenientemente, porque, fartos de sermos maltratados, interpretados e difamados, estamos cansados.

É mais que altura de respeitar o professor. E convém não esquecer que, na classe, há várias categorias e situações profissionais, assim como vencimentos diferentes. Nem tudo é um mar de rosas.




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