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História “trágico-marítima”: o lúgubre barco da morte

Para esta realidade lúgubre e mórbida, não sei quem, com bastante dinheiro (seria bom que se soubesse que interesses reais financiam as suas viagens e a sua actividade), nos envia o barco da morte, que parece querer ressuscitar, num horizonte terrivelmente mais atroz e hediondo, sem beleza e sem sentido estético ou moral, a nossa “história trágico-marítima”. Que tristeza e que pena!

N/D
31 Ago 2004

Fomos todos surpreendidos, há já algum tempo, com a notícia da próxima presença de um barco de origem holandesa, que, em águas internacionais, se propõe facilitar o aborto a todas as mulheres portuguesas que o desejarem, sob certas condições.

Confesso que o conhecimento deste facto, exaltado por alguns como uma espécie de lufada de ar fresco no horizonte tacanho da legislação portuguesa em matéria abortista, me causou dó e amargura.

Provocar o aborto é sempre matar um ser humano. Por mais eufemismos que se criem para amenizar a realidade deste acto voluntário, o que dele resulta é a negação da evolução da vida a um filho que se está gerando, de acordo com as leis naturais, no seio materno. Evita-se o seu caminho normal até ao momento do nascimento, negando-lhe o direito de existir.

Este barco, verdadeiro barco da morte, que tem como objectivo fundamental da sua funcionalidade, de acordo com as notícias que sobre ele se expendem, a realização do aborto, é um lídimo representante da mentalidade tétrica e mórbida que sempre acompanhou uma boa parte da humanidade ao longo dos tempos, segundo a qual os problemas humanos se resolvem com a morte de uma parte, maior ou menor, de elementos da sua espécie.

Neste caso, com a acrescida dramaticidade de se provocar, anualmente, um verdadeiro morticínio de várias centenas de milhões de pessoas, cuja vida não é desejada pelos que mais responsabilidade tiveram no seu dealbar.

Por isso, e antes que incomodem mais os que já cá estamos, matam-se sem dó nem piedade, com o cuidado hipócrita de disfarçar esta realidade com designações que ocultam aos protagonistas deste tipo de morte e ao entendimento dos incautos, a sua verdadeira entidade e significado.

Designar a morte querida e premeditada dum ser humano, através do aborto, por “interrupção voluntária da gravidez”, pela sua insídia, é muito mais trágico e horrendo do que substituir a palavra incómoda “vomitar” pelo gesto adequado de pôr a mão sobre o ventre, inflectir o corpo numa espécie de soluço, e dizer ao mesmo tempo “restituir”, como fazia diplomaticamente um curioso personagem queirosiano para não chocar os seus interlocutores.

Estas pessoas esquecem-se que matar nunca resolveu problema algum ao homem. Se olharmos para a sua história, verificamos que as guerras, os assassínios, as penas de morte e todo o tipo de acção que visou o extermínio dos componentes da nossa espécie, se pôde alcandorar na hegemonia do poder os seus executores durante algum tempo, nunca os perpetuou. Pelo contrário, variadíssimas vezes foi causa da sua auto-destruição. E jamais, repete-se, solucionou o que quer que seja.

É por isso que este barco arrasta consigo todas as características próprias do que João Paulo II chamou a cultura da morte. Esta é prudentemente calculista. Com uma atitude de quem quer ser exímia respeitadora das leis do país – onde o aborto não é minimamente penalizado, mesmo quando feito em detrimento da legislação que o governa -, coloca-se com ar de desafio este barco mortífero em águas internacionais.

A sua presença é um convite expresso à felicidade das mães que quiserem abortar.

Promete-se-lhes a calma, a solução eficaz de um problema actual que as avassala, como se fosse pacífico a uma mãe matar um filho – algo assim como arrancar um quisto ou eliminar uma verruga inestética.

Os defensores da pena de morte são pessoas que ainda acreditam ser possível provocar a defunção de alguém com justiça, porque o réu pode apresentar a sua defesa em toda a linha, é sujeito a um juízo imparcial e objectivo, comete um crime passível da sentença capital determinado com anterioridade à sua execução, etc.

Existe, assim, a convicção, para além do sentido exemplar da pena, de que a justiça humana só dificilmente condenará por engano alguém à sanção suprema em que incorre.

No aborto, todos estes cuidados são postos de lado. Declara-se, à partida, variando com os prazos permitidos pela legislação (no caso de ser respeitada), que uma mãe tem o direito de suprimir a vida de um filho, desde que a sua existência lhe cause engulhos. Não procura saber-se se o condenado à morte está ou não inocente.

A partir do momento em que a mãe declare que não quer que ele viva, o filho passa a ser uma matéria anatómica indesejável, que se encontra dentro do seu corpo e está a mais. A vontade da progenitora é o suficiente, de acordo com a legislação, para dizer que um ser humano não tem o direito à vida e, por isso mesmo, pode ser aniquilado.

Para esta realidade lúgubre e mórbida, não sei quem, com bastante dinheiro (seria bom que se soubesse que interesses reais financiam as suas viagens e a sua actividade), nos envia o barco da morte, que parece querer ressuscitar, num horizonte terrivelmente mais atroz e hediondo, sem beleza e sem sentido estético ou moral, a nossa “história trágico-marítima”. Que tristeza e que pena!




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