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A “esquerda-direita” do presidente Chávez

Há políticos tão híbridos, tão cheios de “nuances”, tão habilidosos, tão populistas, que é difícil dizer se são essencialmente homens de verdadeira Esquerda ou de verdadeira Direita

N/D
31 Ago 2004

Esmagadora vitória no referendo

Foi categórica a vitória obtida pelo presidente venezuelano Hugo Chávez, em 15 de Agosto de 2004, no referendo à sua continuidade no posto até ao fim do mandato.

Este referendo foi teimosamente exigido pela Oposição, através de manifestações violentas e repetidas, de greves, ameaças de “lock out” e de uma máquina de propaganda dirigida contra a sua pessoa, a qual actuava eficazmente também no estrangeiro.

Uma oposição tão radical e conflituosa terá posto de sobreaviso boa parte dos indecisos (que em Democracia são sempre quem acaba por “decidir”…). E estes optaram pela estabilidade, pela continuidade, pois não terão gostado do frenesim, impaciência e intransigência dos anti-chavistas.

2. A comunidade portuguesa

As centenas de milhar de portugueses (em boa parte madeirenses) que lá vivem, principalmente como comerciantes e empresários, inclinaram-se discretamente a favor do fim do consulado de Chávez. E deixaram, com alguma imprudência, que tal transparecesse.

É que eles não esquecem que foram as vítimas principais dos motins populistas de há 15 anos atrás. Como na África do Sul, os nossos emigrantes na Venezuela são frequentemente merceeiros e padeiros, tornando-se a muito justo título credores da população mais pobre das cidades venezuelanas.

A maioria dos venezuelanos são também de raça mestiça, diferença étnica essa que, a par das diferenças económicas e linguísticas, os fazem com frequência segregar os portugueses.

E a saga pessoal de certos portugueses é, às vezes, fantástica. Eu conheço o caso de Isaura F. S., uma compatriota nossa nascida em Angola, sendo a mãe de Viseu e o pai de Vieira do Minho. Em bebé, escapou aos massacres de 1961 no norte de Angola.

Fugiu de Luanda sem tostão em 1974 e fixou-se em Viseu. Depois emigrou para a Venezuela, em 86 ou 87. Mas fugiu outra vez para Portugal aquando das violentas manifestações e saques, há 15 anos; e para lá regressou a seguir…

3. Um peronista admirador de Bolívar

Numa análise objectiva, o presidente Hugo Chávez é um “peronista envergonhado”, é um líder nacionalista mas com alguma inclinação para políticas de esquerda moderna.

E se Perón era um simpatizante discreto dos Fascismos e Nacionalismos europeus, incluindo o da Alemanha, é assim curioso que Chávez sempre tenha reivindicado o liberal, maçónico e anti-espanhol Simon Bolívar (1783-1830), pai da independência de seis das antigas colónias da Espanha nas Américas, como seu modelo inspirador principal.

São contradições da política da Ibero-América, na qual é por vezes difícil distinguir os bons dos maus; ou, como se dizia em antigo calão cinematográfico brasileiro, distinguir o “mocinho” dos “bandidos”. Depende sempre da perspectiva com que partimos para análise; e mesmo assim, como seria de esperar, há políticos tão híbridos, tão cheios de “nuances”, tão habilidosos, tão populistas, que é difícil dizer se são essencialmente homens de verdadeira Esquerda ou de verdadeira Direita. E um político nacionalista como Chávez é sempre de Direita, no essencial…

E isto, apesar de ele se dar muito bem com Lula da Silva e com Fidel Castro, ambos de esquerda, e o segundo, de esquerda bem radical. E também se dá bem com James Carter e William Clinton, sobretudo com o primeiro, ex-presidentes norte-americanos, ambos de esquerda moderada. É que, quando o “amigo americano” estende a mão, deve sempre retribuir-se o cumprimento (e os EUA não foram sempre, graças a Deus, tão intratáveis e soberbos como vêm sendo na actualidade).

Porém, quanto ao chantageável Bill Clinton (cuja primeira administração de quatro anos foi boa, mas cuja segunda foi um desastre), Chávez esquece talvez que foi Clinton quem bombardeou Belgrado por três meses e a província do Kosovo pelo tempo necessário até que os donos da terra, os sérvios, tivessem de fugir quase todos. Enfim, heróis “pós-modernos”…

4. Os “patriots”

Para toda aquela aparente “confusão” de conceitos políticos, contribuirá com certeza a forma como a principal corrente da historiografia sul-americana (e também sobretudo da norte-americana) se habituou a qualificar os líderes independentistas que entre 1776 e 1902 “roubaram” os respectivos territórios (imensos territórios!…) aos impérios coloniais das suas próprias “mães-pátrias”, no caso Espanha, Portugal e Grã-Bretanha.

Os americanos chamam-lhes “founding fathers” ou “patriots”, embora se naqueles tempos a sua verdadeira pátria, a inglesa, os conseguisse prender, seriam julgados por alta traição e provavelmente executados. Os ibero-americanos preferem antes o título de “libertadores”, embora este título só fizesse sentido em relação aos “índios”, cuja exploração e eliminação ra-cial se agravaram depois, como seria aliás de esperar…

5. Perspectivas de baixa do preço do petróleo

A estabilização da situação política na Venezuela está desde já a contribuir para que o preço do petróleo baixe. Mas, para que tal aconteça cabe agora aos americanos abandonarem o Iraque e fazerem-se aí substituir rapidamente por uma coligação de nações prestigiadas por não terem participado na sua invasão e destruição. Como é o caso, por exemplo, da França, Alemanha, Japão, Rússia, México ou Indonésia.

Coligação que será politicamente bem-vinda para todos os iraquianos e cujo trabalho não deverá durar mais que um ou dois anos.




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