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Importa assumir

A corrupção – económica, política, física, psicológica, social e espiritual – é um problema de todos. Efectivamente, todos temos a obrigação de tornar o mundo mais humano, libertando-o do engano, do erro e dos abusos; até porque o que efectivamente está em causa é a dignidade da pessoa e a legitimidade das instituições

N/D
30 Ago 2004

O Diário do Minho espera e deseja a opinião dos seus leitores. Para isso, tem secções próprias, onde são pu-blicadas, sempre que não colidam, no conteúdo ou na forma, com o estatuto do jornal e as leis que nos regem.
Acontece, porém, cada vez com mais frequência, que muitos textos não chegam devidamente assinados, ou então são remetidos sem indicações que permitam assegurar a identidade que reivindicam. Por vezes, comportam apenas uma rubrica inde-cifrável ou o simples pormenor de “munícipe” daqui ou dali. Outras, nem isso.

Há quem se justifique por assim proceder: teme represá-lias, maioritariamente políticas e económicas, mas também represálias físicas – o que diz bem, afinal, da profundidade da democracia que vivemos ou do civismo que tanto se reclama…

Se, avaliadas justamente as circunstâncias, podemos garantir o anonimato das fontes, conservando na intimidade a sua indentificação e contacto, a verdade é que não aceitamos fontes anónimas. Por isso, alguns textos que expressamente solicitam publicação, nas Cartas, no Espaço Aberto ou na Cidadania, acabam por morrer no arquivo, à espera de alguém que assuma a sua paternidade.

Há quem não o entenda e volte a escrever, dias depois, perguntando porque não saiu o seu artigo. Só não percebo porque lhe chama seu, se realmente não o assumiu nem assume como tal.

Não se faz jornalismo nem se pratica a cidadania sem forte dose de risco e de coragem. No entanto, um meio de comunicação social que embarque na aventura do anonimato não revela coragem: a maior parte das vezes revelará, isso sim, falta de ética e filiação em estratégias que fogem da luz. Ou não é verdade que «os sapos preferem a noite»?

A corrupção – económica, política, física, psicológica, social e espiritual – é um problema de todos. Efectivamente, todos temos a obrigação de tornar o mundo mais humano, libertando-o do engano, do erro e dos abusos; até porque o que efectivamente está em causa é a dignidade da pessoa humana e a própria legitimidade das instituições.

A denúncia de comportamentos que fragilizam os alicerces da vida da comunidade é um caminho indispensável. Mas, repito: denúncia documentada e nos locais próprios – e não o mero boato ou a suspeita multiplicados na mesa do café. Por isso, podemos repetir que, de certo modo, todos somos vigilantes da qualidade da nossa vida comum e das suas instituições.

Aliás, há uma coisa que todos podemos fazer: não pedir “favores” nem aceitar que no-los peçam. Nunca; porque, se se começa, não sei se será possível depois escapar à teia das pressões e das ambições – tantas e tantas vezes sub-reptícias, quase bentas…

Os corruptos são, realmente, especialistas no engano. Será por isso que tão facilmente escapam e, às vezes, até se pavoneiam? Embora – verdade seja dita – se pavoneiam mais os corruptores, até pelo desprezo que, em conversas menos públicas, não escondem por aqueles de quem se serviram; tal e qual o marido infiel, que chama nomes feios à… substituta.

Importa agir e assumir. Caminho fundamental é, entretanto, a educação paciente e cuidadosa dos futuros dirigentes e servidores da coisa pública ou privada. E isto faz-se, desde muito cedo, inculcando valores como os da honestidade, da justiça, da solidariedade, da honradez e da transparência.

Sem isso, nada feito e com desastrosas consequências: na primeira oportunidade em que tal se revele conveniente, ou se corrompe ou se é corrompido…




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