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Alegre e a modernidade

Manuel Alegre considerou, ontem [25 de Agosto], ao entregar a sua moção ao Congresso do PS: «Esta candidatura já cumpriu o seu papel». Foi, involuntariamente, o melhor auto-retrato de um candidato partidariamente generoso mas politicamente inverosímil. E de uma candidatura que se destina mais a marcar uma posição e assegurar um espaço de sobrevivência e intervenção do que a disputar verdadeiramente a liderança do PS.

N/D
28 Ago 2004

Alegre é um político frontal e corajoso como poucos, mas que sempre se preocupou mais com os perigos do esquecimento do passado do que com a abertura de caminhos de futuro.
O que o motiva, nesta candidatura forçada e de sacrifício pessoal, é mais a reafirmação de valores tradicionais da esquerda – a igualdade, o Estado social ou a convergência de socialistas e comunistas – do que a apresentação de ideias reformadoras e modernizadoras para a governação do país.

O que o mobiliza, nesta candidatura inesperada e de recurso, é, além da divulgação desta espécie de cartilha político-ideológica da CGTP, impedir o regresso do «guterrismo social-cristão» à liderança, uma nova ascensão da «terceira via» e do centrismo aos comandos do Partido Socialista (e não PS, como saudosamente, faz questão de sublinhar).

Por tudo isto, a sua candidatura à liderança socialista, além de constituir um notório erro de “casting”, converteu-se numa federação de descontentes, deserdados e de-sadaptados do PS.

Nela confluem os restos do destroçado ferrismo, ortodoxos do velho partido dos tempos heróicos e desiludidos de variadas origens.

Aí se encontram figuras que vão de Vieira da Silva a Helena Roseta, de Maria de Belém a Jorge Lacão, de Vera Jardim a Ana Gomes ou de Henrique Neto a Manuel Maria Carrilho.

Carrilho que vê a sua ambicionada candidatura a Lisboa esfumar-se com a hipótese de eleição de José Sócrates para líder do partido (o qual já terá decidido apostar nas autárquicas do próximo ano em António Costa para Lisboa e Francisco Assis para o Porto), juntou-se à candidatura alternativa de Manuel Alegre e garante que é aí que se encontra «a esquerda moderna».

Coisa sobre a qual ninguém tem dúvidas. Basta, aliás, a presença de Carrilho para dar à candidatura de Manuel Alegre um inconfundível toque de modernidade.




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