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A fidelidade

Não será despropositado, nos tempos que correm, falar de fidelidade? Penso que não e portanto vou falar mesmo.

N/D
28 Ago 2004

O que é fidelidade? É a dedicação voluntária e completa de uma pessoa a uma causa, segundo definição de Josiah Royce, no seu livro Filosofia de la fidelidad.
Contava o Papa João Paulo I, numa mensagem do Angelus de 17.09.78, o seguinte episódio que põe em relevo a fidelidade ao trabalho profissional: Um prestigiado professor da Universidade de Bolonha foi chamado, uma tarde, pelo Ministro da Educação, que depois de falar com ele, o convidou para ficar mais um dia em Roma. O professor replicou: “Não posso; tenho amanhã aulas na Universidade e os alunos esperam-me”. O Ministro replicou: “Eu dispenso-o”. Mas o professor continuou: “O senhor dispensa-me, mas eu não me dispenso”.

Homero apresenta-nos na sua Odisseia a história da fidelidade de Penélope. Penélope era casada com Ulisses e devido à Guerra de Tróia há vinte anos que não sabia nada dele. Considerando-a viúva, os pretendentes a um novo casamento eram muitos – mais de uma centena! Penélope, fiel ao seu marido e não tendo a certeza da sua morte arranjou um modo de adiar a decisão. Aos pretendentes dizia: “Só me caso de novo quando acabar de bordar este pano”.

Então, com astúcia, bordava de dia e desmanchava de noite, pelo que o trabalho não mais acabava. Uma criada descobriu e divulgou o segredo e Penélope foi obrigada a acabar o bordado, só que…não se resolvia a casar. Um dia chegou Ulisses transformado em mendigo, não se dando a conhecer.

Penélope, pressionada, tem uma ideia – anuncia que casará com o pretendente que consiga, com o arco de Ulisses fazer passar uma flecha por doze orifícios feitos em outras tantas tábuas postas em fila, certa de que ninguém conseguirá. Assim aconteceu. Então o mendigo – Ulisses – pegou no arco e sem esforço conseguiu. Reconhecido, foi acolhido com lágrimas de felicidade pela mulher que soube ser fiel ao amor conjugal, até aos limites.

Os jornalistas deviam ser, e muitos o são, os profissionais da verdade. Se um jornalista se escusa a ser verdadeiro, atraiçoa a sua profissão pessoal e social. Não pode escrever sem ter a certeza do que escreve; não pode desculpar-se com um «não tive tempo» de procurar a verdade.

Se recebe muita informação não é obrigado a transmiti-la toda, mas só o que sabe ser verdade; a mentira não desculpa a falta de honestidade na informação. Se se engana sem intenção deve reparar. Também por fidelidade à verdade não pode informar de um modo subjectivo, mesmo que isso vá contra os seus pontos de vista.

Pior ainda é a atitude de informar enganando de modo consciente: chamam ao aborto «interrupção da gravidez»; apresentam como marido e mulher, casais que vivem juntos de um modo mais ou menos permanente; fazem propaganda de revistas pornográficas dando-lhes o nome de revistas de «educação sexual»; chamam «operações financeiras de grande visão», o que não passa de um conjunto de fraudes, etc.

Uma rapariga nasceu num lar sem fé. Um dia conheceu a religião católica e depois de estudar resolveu ir viver num país de maioria católica, para melhor conhecer a religião que a atraía.

O que viu desiludiu-a. Se Jesus ensinou o amor, como explicar tanta indiferença de uns pelos outros; se está no Sacrário, como explicar que O deixem tão só; se na Confissão nos oferece o Seu perdão, como explicar que os confessionários sejam tão pouco frequentados; se dizem que a oração é a força de cristão, como explicar que não se reze; se Maria é nossa mãe, como explicar que não se recorra a Ela. (Cf. Fidelidade de Javier Abad Gómez).

Face à falta de fidelidade à fé, daqueles com quem lidou, resolveu não se baptizar. Só Deus que conhece o fundo dos corações pode julgar quem é mais culpado: se a rapariga, que não soube distinguir entre a verdade da religião e a falta de coerência dos católicos com quem viveu, se aqueles que não souberam dar testemunho.

É certo que a fidelidade não está na moda, uma vez que o próprio da moda é ser mutável, e a fidelidade como um valor perene permanece inalterável; contudo se cada um for fiel à palavra dada, mesmo à custa de prejuízos morais ou materiais, todas as restantes fidelidades virão por acréscimo.




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