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Obrigados, Senhor!

Há duas semanas, na missa dominical, o sacerdote falava da importância de cada um de nós na construção de um mundo melhor. Do papel que recebemos de Deus e da obrigatoriedade do seu desempenho consciente, alegre, amoroso, dedicado, persistente, de que só a morte nos desobriga.

N/D
27 Ago 2004

A este propósito contou a seguinte estória, creio que colhida nos escritos de S. José Maria Escrivã:
Numa certa povoação existia uma experiente companhia teatral que ensaiava uma peça cujo enredo se passava nos tempos medievos. Ensaios sobre ensaios, sempre necessários ao brio das personagens. Uma estória de reis, rainhas, princesas, aias e vassalos, criados, soldados e, se calhar carrascos.

Cada um com o seu papel e desempenhá-lo na perfeição era o desejo de toda a companhia. Exibido o espectáculo que satisfez os mais exigentes, terminadas as ovações e as sucessivas vénias de agradecimento, cada actor despiu o trajo e foi tratar da sua vida real.

Porém um, o rei, saiu para a rua como se rei, de facto, conti-nuasse, proclamando a sua majestade, exigindo elogios, vassalagens e outros tratamentos régios. Que pensou toda a povoação?

– Credo, o homem enlouqueceu! Meu Deus, perdeu o juízo, o pobre!

Lembrei-me de tudo isto a propósito da “actual conjuntura”, como é moderno dizer-se sem se saber o que é. Os homens vestem-se de políticos e assim passeiam pelo país.

De qualquer cor, porque ao contrário da peça, todos são tão versáteis que “vestem” qualquer papel. O rei pode sê-lo, mas criado também, o soldado pode sê-lo, mas príncipe também e por aí adiante. Logo, a peça que representam é um desastre.

Ninguém sabe o que diz, por que o diz e muito menos o que faz. Assim há largos anos. Após sucessivos governos (já vamos no 16.º, não é? Que inoperância!), a questão dos fogos continua irresolúvel. Ouve-se que foram deslocados milhões e milhões de euros para a prevenção para o equipamento, para os agentes envolvidos.

Mas o dinheiro, como vil metal que é, não conhece caminho nem carreiro, deixa-se conduzir por reis – soldados – vassalos – criados – carrascos, de mão em mão e não chega onde é preciso. Um ministro, (ou vassalo?) não sei de que governo, disse há pouco na televisão que, comparativamente ao ano passado, ardeu menos floresta (jornais falam de mais de cem mil hectares. Portugal ainda tinha?) genial, excelência!

Até eu lhe digo que para o ano arderá menos e daqui a dois ou três, nada.

Na rua, no parlamento, nas autarquias, todos se afirmam honestos, competentes, sábios, efi- cientes para tudo, dignos de respeito (embora não respeitem nem se respeitem) e confiança (embora desconfiem uns dos outros e mintam descaradamente). E nós, que os vemos e ouvimos, nós que esperamos, desesperadamente que salvem as nossas matas, os nossos haveres, as nossas vidas, o ar que respiramos, dizemos o quê?

– Credo, os homens enlouqueceram! Meu Deus, perderam o juízo, os pobres!
Deus, nosso Pai todo poderoso, o que faz? Bem, Ele (e é esta a minha crença), não gosta dos enganadores, dos mentirosos, dos preguiçosos e falsos profetas.

Assim, não fará o trabalho dos homens. Deu-lhes o livre arbítrio, o poder de escolha, então que façam o seu papel bem feito, quer na peça, quer na vida real.

Haveria Deus de sustentá-los sem lhes exigir nada em troca? Mas… até a Sua Santa Paciência tem limites! Cansou-se de tanta inoperância, azelhice, estupidez.

Cansou-se, sobretudo, dos gritos desesperados de povoações inteiras, de um dia para o outro na miséria, devido à coragem devastadora do fogo. Cheio de compaixão pelos desamparados, decidiu salvar-nos e aos poucos fiapos verdes que nos restam.

Então, enviou esta chuva abençoada que tem varrido o país em todas as direcções e acabado com os rescaldos mais persistentes. Obrigados, Senhor, pela Tua Bondade!




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