Fotografia:
Família, escola e televisão

Na reflexão que se faz sobre a educação seria utópico não fazer uma referência ao papel da televisão. Hoje, em dia, quer queiramos quer não, a televisão pertence ao nosso mundo, ao mundo das famílias, ao mundo da escola.

N/D
27 Ago 2004

E neste universo todo, ela pertence, de modo especial, ao mundo das crianças e dos jovens. Ela pertence-lhes, ela faz parte do seu quotidiano, sem ela, as crianças e os jovens já não sabem viver. Não é por acaso que somos quem vê mais televisão por esta Europa fora e também quem lê menos.

Se atendermos no princípio de cada aula (e de modo especial de manhã cedo), as conversas antes de se começar, verdadeiramente, a aula, são sobre o que viram na televisão no fim de semana, os seus filmes, as suas telenovelas, os concursos, os artistas, etc. Para assentar a poeira do fim de semana, muitas vezes, torna-se difícil.

Se avançarmos pelo dia fora e formos até aos recreios, ali estão grupos a discutir os programas de televisão, ali estão dois ou três a comentar uma tirada mais “escaldante” da noite passada.

Não há a menor dúvida que a televisão domina as cabeças dos nossos estudantes e nem as aulas dão retiro, nem descanso, aos ensinamentos e desvirtuamentos que a televisão traz à pequenada.

Já ouvi comentários, na escola, feitos por crianças, sobre filmes que passam na televisão às três da manhã. Já observei olhos carregados de sono, porque na noite anterior o menino não pregou olho, para estar a ver cenas “sexy” no remanso do seu quarto de dormir.

Por outro lado, também já vi discutir problemas, dos mais variados, que são fruto de programas televisivos. E ninguém poderá ser tão ingénuo ao ponto de não entender que a pequenada também aprende muitas coisas a partir da televisão. Nem poderia ser de outra maneira.

Perante tudo isto, a conclusão que poderemos tirar é que a televisão é um instrumento permanente que está ao alcance de todos e que influência positiva e negativamente a nossa acção e os nossos comportamentos e também os nossos conhecimentos.

Está claro que a televisão não é um produto intrinsecamente perverso, nem é um mensageiro com receitas celestes, uma espécie de elixir, que teria bênçãos para tudo e para todos. Poderá até ser um “pau de dois bicos”. Por isso mesmo, terá de ser utilizada com cautela, prudência e bom senso. E sobretudo com senso crítico.

Hoje em dia, o que mais se ouve dizer é que a televisão não educa, antes deseduca.

Na sua programação o que está em mira é o lucro fácil e crescente e, por isso, o que interessa dar aos seus “clientes” é diversão o mais atraente possível e o mais fácil que se conseguir, para que se consuma sem grande esforço e dificuldade. Que entre pelos olhos dentro, que se coma sem ser preciso mastigar e que venha até nós sem ser preciso nos mexermos do sofá.

A perspectiva da televisão como foco de educação não está em primeiro plano nem na programação nem na recepção. Fazer pensar? Transmitir a sistematização de conhecimentos? Para quê tudo isto se há maneiras mais práticas de seduzir o cliente e de o manter preso ao ecrã? A tentação do facilitismo e do lucro é grande demais para se deixar cair nela!

Por outro lado, muitos dos que pensam nestas coisas dizem que a televisão se vai demitindo do seu dever: ter programas didácticos e pedagógicos, de formação e informação, debates temáticos, etc.. Poderão dizer que continua a haver também estes programas… Mas que lugar ocupam, que relevo se lhes dá, que interesse se põem neles?

Sabemos, entretanto que a televisão usa meios e técnicas que contradizem os métodos escolares. A imagem predomina na televisão, ao passo que na escola é a palavra e a escrita. Na televisão predomina a preocupação de fazer aflorar os sentimentos, as emoções, na escola o ensino está virado para a reflexão e dedução.

Na televisão a rapidez das imagens, a superficialidade dos assuntos abordados não estão na linha da investigação e aprofundamento das questões colocadas na escola.

Por estas razões e por muitas outras, o professor e a escola começaram a não gramar a televisão e a sua programação. Geraram-se muitos preconceitos e muitas das posições foram-se extremando.

No entanto, quer queiramos quer não, a televisão existe e desempenha o seu papel cada vez mais atraente e generalizado na sociedade e nas comunidades educativas e familiares. Por isso, os educadores, os professores, os pais e os alunos, terão de se convencer que têm de lidar, de modo saudável e crítico, com este instrumento de trabalho e de lazer. Anatematizá-lo não interessa nem vale a pena. Tem que se assumir o seu papel e tirar dele o maior proveito.

Também temos que ir convencendo que a televisão exerce um grande poder (educativo ou deseducativo) na vida das crianças e jovens. Que através dela os alunos apreendem milhentos conhecimentos, emoções e comportamentos. Que a televisão é uma parte essencial da marcha da vida de todos nós. Será o caso para dizer: “se não podes vencer o inimigo, alia-te a ele”.

Mas os problemas centrais relacionados com a televisão continuam a pôr-se: qual é a dimensão que a educação deve ter na televisão; como é que a educação deve ser tratada nos programas televisivos; como orientar a educação para de modo crítico e saudável se possa usufruir dos ensinamentos e das propostas diversificadas que a televisão apresenta.

Há muitos pais que ficam boquiabertos com certos conhecimentos e certas perguntas que saem da boca dos seus próprios filhos, mesmo dos mais pequenos! Onde é que ele terá apreendido estas coisas, perguntam-se? Se muitas coisas passam pelas conversas com amigos, hoje muitas delas passam também pelos ecrãs das televisões.

E não nos esqueçamos que muitas das crianças têm televisão no seu próprio quarto, na cozinha e no lugar central da sala comum!

Não poderemos ser cegos de todo ao ponto de afirmarmos que nas televisões não se aprende nada de jeito. Há programas com muitos conhecimentos, programas bem feitos e até programas didácticos. Há programas bons para crianças (outro menos bons) e programas bons para jovens, em qualquer um dos nossos canais, quer públicos quer privados.

Poderão perguntar: mas há um projecto educativo naquilo que se ensina televisivamente? Talvez não haja e talvez nem vá haver. Na verdade, a televisão não tem só a função educativa, mas também de lazer e divertimento, de desporto e de transmissora de conhecimentos sobre tudo e todos. No entanto, sabemos que em toda a sua programação tem de se reger por padrões universais, pelo bom senso e pela preocupação de tornar esta nossa sociedade mais humana e habitável.

Não é suficiente dizer que as televisões têm maus programas, que não educam e que provocam um mal-estar nas famílias, nas escolas e na própria sociedade.

O cidadão tem obrigação de possuir um critério de análise e de escolha. Tal como na televisão há muitas outras coisas na sociedade que nos entram pelos olhos dentro, que tropeçamos nelas em cada esquina e que temos de saber lidar com elas.

De facto, o mal não está fora de nós próprios. O critério de escolha e de preferência está dentro de nós. E é a partir de dentro que temos de saber escolher, ajuizar e optar. Construir o sentido crítico para uma correcta escolha é uma tarefa essencial para todo o cidadão. E este sentido crítico é tanto mais importante, quanta maior diversidade de propostas existentes na nossa sociedade e quanto maior número de ensinamentos e conhecimentos nos advêm das televisões.

Saber escolher criticamente, eis o caminho. Mas também aqui a escolha poderá e deverá ter um papel fundamental, na formação da mente das crianças e jovens. Por isso, não é suficiente dizer às crianças e jovens que a televisão é má e deseduca, mas dar-lhes os meios para que a partir dos seus programas eles possam escolher com sabedoria aquilo que os possa fazer crescer em ordem ao futuro.

Deste modo, a televisão não é um instrumento de saber que tem, necessariamente, de ficar na indiferença. Aliás, os programas são feitos por pessoas e para as pessoas. Se eles não têm um fim especificamente pedagógico ou didáctico, todos sabemos que eles atingem, de uma maneira ou de outra, as pessoas e que as influenciam positiva ou negativamente.

Daqui a responsabilidade de quem faz os programas e também a responsabilidade de quem os vê. Quer uns quer outros, têm de se reger por valores e normas ético-morais.

Se a pluralidade é querida e a diversidade é desejável, também é querida e desejável que haja cons-ciência crítica e bom senso para saber escolher o trigo do joio.




Notícias relacionadas


Scroll Up