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No ruído dos dias que passam

Desde que nascemos, aprendemos a viver e a sobreviver no meio de todos os ruídos, ignorando ou esquecendo que o silêncio é absolutamente indispensável para escutara nossa voz interior

N/D
26 Ago 2004

Divido-me entre a magia e a realidade. A magia dos sentimentos nascidos da poesia das coisas e a realidade das coisas em si, desprovidas de poesia.

É o silêncio que faz a diferença e a transição. É no silêncio que emerge a compreensão.

No bulício dos dias que correm, o ruído distrai-nos da poesia e embriaga-nos de falsas palavras. Há muito desperdício nas palavras ditas. E muito ruído no espaço que liga os seres humanos e os dias…

O ruído da pressa. O ruído do atropelo. O ruído da intolerância. O ruído da indiferença.

O ruído do medo.

E o ruído pior: o dos gestos e palavras que, afastando-nos dos outros, nos tornam mais estranhos de nós.

Pequenos ódios a gerar grandes distâncias. Pontes de afectos permanentemente construídas e destruídas gratuitamente…

Quando foi a última vez que estivemos em silêncio absoluto, apenas atentos ao marulhar de fundo do pensamento?

Quando foi a última vez que olhámos uma paisagem natural deslumbrante e nos sentimos incrivelmente felizes por nos sentirmos parte dessa natureza?

Quando foi a última vez que olhámos uma flor e subitamente compreendemos a beleza única da sua existência efémera?

Quando foi a última vez que olhámos o outro nos olhos, sintonizando o mesmo pulsar, e logo fomos capazes de ver o que não é visível aos olhos, numa telepatia quase imediata?

Desde que nascemos, aprendemos a viver e a sobreviver no meio de todos os ruídos, ignorando ou esquecendo que o silêncio é absolutamente indispensável para escutar a nossa voz interior.

Se prestarmos atenção à nossa volta, constatamos que a vida é muito mais silêncio que ruído. Então porque será que o ruído se sobrepõe e ensurdece de tal forma que não somos capazes de escutar o silêncio? O que se esconde em todos os ruídos? O que se procura com o atordoamento que nos faz correr permanentemente?

Quem sabe, o medo inconsciente de nos encontrarmos e finalmente nos reconhecermos…

É urgente parar e repensar o caminho. Todo o caminho que nos distrai da nossa essência divina só pode conduzir a um labirinto escuro e sem saída.

É urgente parar e, nesse tempo de paragem, sermos capazes de nos surpreender com a maior e mais importante revelação de nós – o reconhecimento de quem somos e do que estamos aqui a fazer.

Dentro de cada um de nós não há espaços para albergar vazios. Os espaços estão em transformação permanente e se tardam em definir-se, é porque os ruídos são muitos e confundem-nos. É preciso prestar atenção ao apelo do silêncio na nossa vida, pois quando o silêncio se instala, os espaços até então ambíguos ficam cheios de uma sabedoria imediata.

É urgente cultivar o silêncio, pois ele tem o dom de nos tornar atentos ao nosso próprio ruído interior, ensinando-nos a distinguir o que é nosso e o que não é, o que é importante e o que é supérfluo.

De início, é difícil e desconfortável. Não sabemos o que fazer com o silêncio. É como alguém desconhecido que está a mais e nos observa sem pudor. É natural. Quando não se está habituado, o silêncio é um lugar estranho que invade a intimidade sem pedir licença, expondo as nossas maiores fragilidades.

Depois, se insistirmos, lentamente, o diálogo começa. E este diálogo, de nós com nós, revela-nos o que não se aprende com nenhum mestre e em nenhum livro.

Finalmente, um dia o silêncio instala-se e já não somos capazes de viver sem ele. De lugar estranho passa a lugar de refúgio.

Deixar que o silêncio invada a nossa vida proporciona-nos uma experiência única de paz, um estado de graça natural que nos pertence, mas do qual andamos afastados ou perdidos.

Que histórias incríveis o silêncio tem para nos contar…

Assim que aprendemos a cultivar o silêncio, constatamos que somos capazes de viver acima do ruído de fundo dos dias. Porque o silêncio é sempre interior e, no lugar do silêncio, existe uma perspectiva diferente que muda a nossa relação com o mundo.

Neste lugar de paz, o tempo que parecia nunca chegar para concretizar tudo o que queremos, começa a ser maleável e relativo nas nossas mãos.

É a descoberta do silêncio que vai iluminar e decifrar os túneis que existem dentro de nós. Com a ajuda sábia e tranquila do silêncio, nós vamos entrar nesses túneis pela primeira vez e percorrê-los sem medo, explorando o que é novo e integrando-o harmoniosamente em tudo o que já sabemos.

É no lugar do silêncio que ficamos a saber a hora em que estamos preparados para conhecer mais um pedaço dessa terra inexplorada de que somos feitos e que o medo nos impede tantas vezes de reconhecer.

É importante aprender a conviver com o silêncio. No seu ritmo. No seu vagar. Na sua sabedoria. Chegaremos sempre onde precisamos de chegar, ainda que às vezes não compreendamos o caminho…

Que bom olhar a quietude da Lua espelhada na superfície de um lago. E ficar assim, neste silêncio sublime, hipnotizados por essa luz encantatória!




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