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A farrimónia

Farrimónia: é tudo aquilo que não presta, não se organiza, não sintoniza

N/D
26 Ago 2004

A fazer fé nos dicionários que consultei, a palavra farrimónia não existe. E, no entanto, desde muito cedo que eu sei o que é uma… farrimónia: é tudo aquilo que não presta, não se organiza, não sintoniza.
Colhi o significado do uso que à inexistente palavra dava o meu falecido avô materno, em circunstâncias que passo a explicar:

O velho Aguiar procurava uns pregos para uma solução imediata na cancela do eido e, na caixa, havia uma grande mistura de tamanhos e feitios, mas uns mais inadequados que os outros?… Logo decretava: – «tira-me para lá essa farrimónia!…»

Olhava o rancho de trabalhadores que o vizinho tinha conseguido para a lavoura e não via no grupo gente suficientemente despachada? … De imediato comentava: – «Mas que farrimónia arranjou o Alexandre!…»

A avó cozinhou para o meio dia uns feijões com couves à Terras de Bouro?… Era capaz de preferir outra coisa, mas: – «Ora dá cá essa farrimónia!…»

Até a procissão mais solene lá da terra rapidamente passava a farrimónia… Bastava que o pregador se desajeitasse no sermão, as crianças desrespeitassem a função, as cantoras fossem cada uma por seu lado, a banda se ficasse pelo “cabra-velha-arroz-pró-pote” e o pároco distraísse toda a gente ao tentar pôr dois atentos…

Sinónimos de farrimónia só lhe conheci um: «gaita galega». Mas eu sempre gostei mais do original. Mantenho, por isso, a farrimónia como palavra de eleição.

E quantas vezes a uso, meu Deus; ao menos mentalmente… Aliás, ou é defeito meu ou cada vez se justifica mais que a desgaste.

De facto, que hei-de chamar a reuniões sem agenda nem conclusões? A vidas e instituições improvisadas? A grupos sem uma colher de cimento de identidade e coerência? A entusiasmos indisciplinados e sazonais? A escolhas sem reflexão? A decisões até ver o que dá? A equipas onde um ou dois fazem o que sabem e os restantes dão recados, distribuem bilhetes e colam cartazes, num curso intensivo de vereadores?…

Os meus amigos chamem-lhe o que quiserem. Mas se optarem pela propriedade de termos, a escolha é, depois da explicação acima apresentada, farrimónia.

Podem, pois, falar elegantemente da farrimónia que nos governa e da farrimónia que se lhe opõe.

Podem ler a farrimónia de elogios que um ego escreve sobre o ego alheio que, a seu tempo, lhe retribuirá.

Podem arrumar, sem ler, a farrimónia de fotocópias que nos pesam na pasta, logo na primeira manhã de um encontro anunciado para recolher a nossa opinião.

Podem ir ao aeroporto e chamar farrimónia a uma selecção de jovens que confundiram colegas iraquianos com milícias do Moqtada Sadr.

Podem perguntar que faz toda essa farrimónia da mesma família na mesa municipal.

Podem olhar, espantados, a farrimónia arregimentada para declarações pagas.

Podem contabilizar os bens de quem uma produção fictícia arrancou da farrimónia da vizinhança para o balanço do barco e os ares salgados.

Convençam-se: farrimónia é uma palavra bonita e inofensiva. É uma das que podemos usar ao telefone, sem medo que transcrevam a gravação.

Só por isso me atrevo a sugeri-la, tirando-a do anonimado do aldeão que a usava diante de um Torga melancólica e condescendentemente sorridente, de boina ligeiramente ao lado, antes de descer a Costa para voltar ao Gerês…




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