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Sinais de boa esperança: um Verão diferente na Serra da Estrela

Se o quadro português é um pouco negativo, existem, no entanto, sinais positivos. O “Cabo das Tormentas” das tempestades divorcistas não os consegue retrair. Vêm das famílias unidas, que não têm medo de ter filhos

N/D
24 Ago 2004

Recordo-me de que, quando na minha já longínqua 4.ª Classe, aprendi História de Portugal, a professora – tão boa senhora como exigente -, ao falar-nos do momento em que Bartolomeu Dias conseguiu dobrar o que ele designou por Cabo das Tormentas, no extremo Sul do continente africano, o nome deste cabo foi posteriormente mudado para Cabo da Boa Esperança.
E a razão residia, fundamentalmente, nas melhores expectativas que a sua passagem dava aos nossos mareantes para chegarem à Índia através dos oceanos.

Foram em vão, segundo Camões e, depois, Pessoa, os muitos protestos que o Gigante Adamastor vociferou quando enxergou os navegantes portugueses. Não os amedrontou ou fez desistir dos seus desígnios. Teimosamente, vencendo as ondas e o medo, acabaram por atingir tão almejado objectivo.

Neste momento, Portugal não parece fadado a tais empreendimentos, que tiveram o seu momento histórico, a sua época própria. O país voltou à configuração geográfica anterior ao início da expansão e dir-se-ia que a sua imagem é a de um velho reformado. Como escreveu um poeta: Ah! Portugal, Portugal,/ meu velho país cansado, / teu passado é mar e sal, / teu presente apenas fado! E depois de várias considerações, conclui: Que fazer, segues qual senda, / marinheiro reformado? / Só te resta a tua lenda, / andarilho extenuado? / Neste presente tão duro, / da mais fosca realidade, / já pensaste no futuro? / … Ou só te resta a saudade…?

Um velho reformado, nas circunstâncias dos nossos dias, é uma sina melancólica para muitos nacionais. Aguardam o seu fim com pouco sentido e, muitas vezes, entregues à sua solidão, sem ninguém que cuide deles, a não ser a alma generosa de muitas instituições, nomeadamente da Igreja Católica, que se ocupam dos seus tempos e da sua saúde, os trata e até os divertem, procurando suprir o que as suas famílias não podem ou não querem fazer. Alguns deles têm a sorte de exercerem de novo as suas funções de educadores, quando os netos os cercam e os filhos lhes pedem essa ajuda.

Outros, porém, já nem isso conseguem concretizar, porque com a baixíssima natalidade lusitana, começam a escassear as crianças e a proliferar os representantes da terceira idade. Como alguém dizia: “Sobram avós para a quantidade de netos que nasce”.

Além disso, com a democratização do divórcio, os conflitos fami-liares levam alguns avós a pagar por tabela o desacerto conjugal dos seus descendentes, pois têm de se sujeitar às decisões dos tribunais. Não podem ver os netos com naturalidade. Têm de se sujeitar aos períodos consignados pela justiça para o cônjuge da sua família tutelar os filhos.

Acresce ainda que não é raro que os elementos divorciados da sua prole voltem a arranjar novas companhias mais ou menos estáveis, o que provoca nos netos a ideia de que os avós são variáveis e caducos, além de muito numerosos, pois mudam consoante o pai ou a mãe trocam de par.

Este caos anti-natural gera uma profunda confusão na mente e nos afectos das crianças, dilui a consciência da importância dos avós e provoca muitas situações depressivas e traumáticas.
Se o quadro português é um pouco negativo, existem, no entanto, sinais positivos. O “Cabo das Tormentas” das tempestades divorcistas não os consegue retrair. Vêm das famílias unidas, que não têm medo de ter filhos.

Não é verdadeiramente admirável, no actual panorama desta terra, que haja famílias que se unem para, em conjunto, passarem calmamente com os seus, no ambiente pacato e arejado da nossa Serra da Estrela, umas belas férias? Consta-me que, há dias, eram dezassete famílias que por lá andavam, e, no total, somavam setenta e seis filhos. Estes participavam com os pais e os restantes companheiros em actividades diversas, que os ocupava e distraía de uma forma sadia e natural. Deve ter sido – está a ser, tanto quanto eu sei – para todos um Verão diferente.

Iniciativas como esta, se se multiplicam, podem constituir um novo “Cabo da Boa Esperança” da vida familiar portuguesa, num país onde a legislação se afigura empenhada em destruir a estabilidade dos lares e em facilitar, com patológica perseverança, tudo o que desagregue e dissolva as famílias. Parabéns aos seus organizadores.




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