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Informação, conhecimento e sabedoria (II)

O nosso problema é que não somos capazes de fazer sabedoria, ao menos, a um ritmo próximo ao do conhecimento

N/D
24 Ago 2004

4 O progresso do conhecimento revela-se como um erro decrescente. Em Conjecturas e Refutações, Karl Popper, é claro: “À medida que vamos aprendendo com os erros que cometemos, o nosso conhecimento aumenta, embora possamos nunca vir a saber (saber com certeza).
Uma vez que o nosso conhecimento pode crescer, não pode haver aqui razão para desesperar da razão. E, uma vez que não podemos nunca saber com certeza, não pode haver aqui autoridade para qualquer reivindicação de autoridade, nem para qualquer vaidade ou presunção acerca do nosso conhecimento”.

Assim, a ciência é outro depósito, mas desta vez, não de informação, mas de teorias e modelos: diz-nos como fazer isto ou aquilo. Fala-se, por vezes, de “sociedade de conhecimento”, quando deveria dizer-se “sociedade de informação”.

No entanto, o conhecimento científico tem também os seus limites; a ciência é um saber instrumental que nos mostra o que se pode fazer, mas de modo nenhum o que se deve fazer. Ora, pouco podemos dizer dos valores a partir do conhecimento; com o neopositivismo, a ciência pretendeu, de certo modo, erigir-se, eliminando os valores.

Todavia, do que devemos fazer ou não, acerca do “viver bem” (Aristóteles), isto é, do sentido último da existência, sobre o amar e o odiar, sobre o belo, disso tudo pouco sabe a ciência. Disso, certamente, se encarrega a sabedoria: esta é uma forma de saber que, superior à ciência, portanto também à informação, trata de ensinar a viver, e esclarecer, de entre o muito que se pode fazer, o que merece ser feito.

Deste modo, informação, conhecimento e sabedoria respondem a três perguntas muito distintas: o que existe? (informação); o que se pode fazer? (conhecimento); o que se deve fazer? (sabedoria).

As coisas não são ainda assim tão claras; claramente que não, pois os ritmos de desenvolvimento destas três formas de saber são mui distintas. Como refere Lamo de Espinosa, se em 1999 havia 500 milhões de páginas web, e em 2002 se calculavam já em 6.000 milhões, o volume de informação acessível, mediante um simples gesto na Internet, duplica-se cada três meses a um ritmo frenético; de facto, podemos navegar em massas de informação.

Já o ritmo do desenvolvimento do conhecimento é mais complexo; segundo o mesmo autor, o stock de ciência válida tem-se vindo a duplicar aproximadamente cada quinze anos (que é também o ritmo de revistas científicas especializadas e de ramificação de especialidades científicas). E ninguém duvidará que se trata de um dos poucos âmbitos onde podemos falar, com rigor, de progresso; e mais: essa é uma variável (mas não a única) que ajuda a explicar a história, mediante o progresso dos conhecimentos.

Poderíamos, então, arriscar a afirmação: ambos crescem em progressão geométrica, mas a informação fá-lo tendencialmente cada três meses, o conhecimento cada quinze anos.

5. Já a sabedoria de que dispomos não é muito maior da que tinham Confúcio, Sócrates, Buda ou Jesus, e não parece ter melhorado muito nos últimos três mil anos e, o que é pior, não sabemos bem como produzi-la. Tão pouco diria que retrocedeu, mas sim que é quase uma constante que variou pouco ou nada nos últimos séculos.

Essa a razão pela qual, obras como Ética a Nicómaco (Aristóteles), Da constância do sábio (Séneca), os Sermões (Padre António Vieira), e tantas outras, têm hoje o mesmo valor que no tempo da respectiva publicação; ocorre-me também o Sermão da Montanha (Jesus de Nazaré), mas o patamar já é outro: é o da própria santidade.

Ora, como dizia Whitehead, a ciência progride com os seus clássicos e ninguém que deseje saber óptica lê hoje Newton. Se tivéssemos progredido em sabedoria como o fazemos em conhecimento, esses velhíssimos textos morais careceriam de valor, como já não tem a mesma valia o Tratado elementar de química, de Lavoisier.

Para H.-F. Amiel, no seu Diário interior, “a moderação é o sinal de maturidade interior e o equilíbrio é a marca da sabedoria”. L. Lavelle completa: “a sabedoria é indivisivelmente uma virtude da inteligência e uma virtude da vontade; uma virtude da vontade, porque impõe moderação aos nossos desejos e às nossas paixões; mas é uma virtude da inteligência, porque consiste primeiramente em reconhecer onde está a moderação”.

T.S. Eliot, em 1934, dizia num dos seus poemas: “Invenções sem fim, experimentações sem termo, fazem-nos conhecer o movimento mas não a quietude, o conhecimento da palavra mas não o do silêncio, as palavras mas não a Palavra”. E acrescenta: “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? E onde está o conhecimento que perdemos com a informação?”.

Quando vivemos afogados em informação, com mais conhecimentos, mas com a sabedoria de há três mil anos, vale a pena reflectir nessa profunda intuição de T.S.
Eliot. E, como advertiu Lamo de Espinosa, o nosso problema é que não somos capazes de fazer sabedoria, ao menos, a um ritmo próximo ao do conhecimento.




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