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Informação, conhecimento e sabedoria (I)

Com a globalização da informação, o mais pequeno acontecimento torna-se visível e,aparentemente, mais compreensível; no entanto, não há relação directa entre o aumento da amplitude de informação e a compreensão do mundo

N/D
23 Ago 2004

O facto de acabar de gizar, num bloco de papel, algumas notas para um artigo sobre “Europa, Cidadania e Multiculturalidade” – que retomarei mais tarde -, levou-me a pensar na relevância doutros trinóminos, como “Informação, Conhecimento e Sabedoria”, ou “O Íntimo, o Privado e o Público”, e alguns mais, que penso vir a propor para reflexão.

1. Sobre informação, conhecimento e sabedoria, surgem logo umas quantas peculiaridades. Primeiramente, um dos traços característicos das sociedades hodiernas é sem dúvida configurado pela revolução informacional, que, desde o nível tecno-económico, se repercute numa espécie de unificação do mundo. Hoje somos, sem dúvida, testemunhas privilegiadas do trânsito a uma aldeia global, pela qual se verifica alguma continuidade de um século (XX) a outro (XXI); na aldeia global, a Humanidade viu-se reduzida à informação momentânea, que não apenas transmite factos reais, mas pode tornar real o ficcional.

Não são já as barreiras naturais, oceanos ou continentes, montanhas ou vales, que criam fortalezas ou traçam fronteiras, mas o poder de estar em todas as partes pela imagem e pela palavra.

O planeta é já uma gigantesca mesa de bilhar, em que as bolas rolam constantemente contra os limites do rectângulo, influindo umas nas outras, num processo ininterrupto.
Com a globalização da informação, o mais pequeno acontecimento torna-se visível e, aparentemente, mais compreensível; no entanto, não há relação directa entre o aumento da amplitude de informação e a compreensão do mundo. Este é o novo dado do século que se iniciou: a informação não gera necessariamente comunicação.

A própria expressão “sociedade de informação” – também se usa “sociedade de comunicação” -, pode ser um enunciado equívoco; em rigor, toda a sociedade, pelo facto de o ser, é de informação e de comunicação; o que varia é, por um lado, a natureza e a dimensão da informação e da comunicação e, por outro, as mudanças que, em cada época e sociedade, afectaram e afectam as formas de se relacionar, aprender, trabalhar, em suma, de viver.

2. Mais ainda: o fim das distâncias físicas revela a importância das distâncias culturais. Curiosamente, esta última fase da globalização, que se pensava nos iria tornar o mundo mais familiar, é aquela que, pelo contrário, nos faz tomar consciência das nossas diferenças. Esta é a grande mutação deste início de século em matéria de comunicação: a tomada de consciência de uma descontinuidade radical entre o emissor e o receptor. Importa, pois, enfatizar a importância dos factores sócio-culturais: a mesma mensagem, dirigida a todo o mundo, nunca será recebida da mesma maneira por todos.

Este é um dos nós-górdios de hoje: a ruptura entre informação e comunicação, a dificuldade de passar de uma a outra. Sabia-se que as culturas eram diferentes, mas pensava-se que a mesma informação podia ser mais ou menos aceite por todos; apercebemo-nos do contrário: há um fosso que se escava entre informação e comunicação.

Descobrimos esta verdade empírica, por vezes dolorosamente, ao nível dos Estados-nações; encontramo-la de forma mais nítida à escala mundial: a guerra no Iraque está aí para a comprovar tragicamente. É um determinado modelo universalista – na verdade, ocidental – da informação e da relação entre informação e comunicação que entra em crise.

Por outro lado, as tecnologias interactivas da comunicação modificam a experiência do espaço e do tempo, as relações entre as pessoas e entre as pessoas e o meio social; alguns especialistas alertam para esse facto, insistindo na eventual perda de espiritualidade susceptível também de operar-se nos cibernautas.

A qualidade das aplicações sociais das novas tecnologias dependerá de opções económicas e políticas que possam abrir caminho; se queremos que as novas tecnologias sirvam para aprofundar na cultura democrática e de respeito pela diversidade, necessitamos de políticas culturais e comunicativas cultas, inovadoras e progressistas.

3. Neste contexto, certamente informação, conhecimento e sabedoria são três modos de saber, mas de distinto alcance e desenvolvimento. Como salientou Emilio Lamo de Espinosa, no “El País”, a informação faculta-nos dados, bits, diz-nos o que é: ela pode ser digitalizada, arquivada e transmitida; hoje, encontramo-la em rede: com rapidez se consulta a Internet, gigantesco depósito de informação; basta uma ligação barata à web para ter acesso a bases gigantescas de informação.

Por outro lado, a informação, longe de se consumir (como o petróleo e outros recursos naturais) cria-se com o uso; um claro sintoma da nova realidade é este: entre as vinte primeiras empresas industriais do mundo estavam seis sociedades de informática e da micro-electrónica; há vinte anos não havia nenhuma. O poder reside cada vez menos na propriedade de elementos mate-riais (terra, recursos naturais, máquinas, etc.) e mais no domínio dos factores quase imateriais (conhecimento científico, informação, comunicação, etc).

Se é verdade que o conhecimento carece da informação, o importante hoje é que, com o acesso facilitado à informação, esta cada vez vale menos; o importante não é já ter informação: quem quiser tê-la, tem-na. O importante é discriminar a informação relevante daquela que o não é, separar informação e ruído, informação do lixo.

Na verdade, o conhecimento é outra coisa: é um saber que, a partir de muitos dados, e mediante indução, dedução, ou analogia, diz-nos não o que é, mas o que se pode fazer. Gaston Bachelard, n’A Formação do Espírito Científico, sustém “que conhecemos contra um conhecimento anterior, destruindo conhecimentos mal feitos, superando o que, no próprio espírito, faz obstáculo à espiritualização”; para um espírito científico, todo o conhecimento é resposta a uma questão; diz o mesmo autor, “se não houve questão, não pode haver conhecimento científico: tudo é construído”.

(Continua, com os pontos 4 e 5)




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