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Turismo etílico

Quando chega o período estival, costuma o “Expresso” prestar uma particular atenção às iniciativas destinadas a facilitar a vida aos bêbedos.

N/D
22 Ago 2004

Quando chega o período estival, costuma o “Expresso” prestar uma particular atenção às iniciativas destinadas a facilitar a vida aos bêbedos. No ano passado, no final de Julho, a primeira página do jornal serviu para dar conta de uma pitoresca proposta apresentada ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa por uma cooperativa de táxis. A sugestão, que Pedro Santana Lopes ia apreciar – e não se sabe se apreciou ou não -, era simples: os bêbedos, aos fins-de-semana à noite, podiam andar de táxi sem pagar rigorosamente nada porque o Estado se encarregaria de pagar as facturas. As borlas concedidas aos etilizados à custa do dinheiro da nação eram apresentadas como um contributo para reduzir os acidentes de trânsito provocados pelo álcool.

Este ano, no passado dia 14 de Agosto, mais exactamente, resolveu o “Expresso” contar a história de quatro autocarros que, durante a madrugada, andam pelas portas das discotecas algarvias a recolher jovens bêbedos ou, para quem apreciar o zelo eufemístico do jornal, “jovens esgotados pelas noites do Algarve”. Observa o “Expresso” que “à noite os jovens dão asas à sua alegria e bebem em excesso”. Por isso, segundo a fatalista teoria do jornal, “todos os anos, no Sul do país, morrem jovens que antes de entrarem no carro já vão com o destino marcado, tal é a inconsciência”. Para evitar estas mortes, há os tais quatro autocarros “que levam gratuitamente os jovens de discoteca em discoteca”. O semanário apresenta a iniciativa e recomenda-a: “Esta ideia bem pode ser copiada noutras regiões do país”.

Sobre o negócio de embebedar jovens (próspero, como se saberá por outro jornal), o “Expresso” – que não deixou de reparar no “baldinho do vómito” que há em cada autocarro e que “não chegou a tempo para o miúdo que se estava a sentir agoniado” – nada diz de particularmente relevante. Desse aspecto, ocupou-se o “Tal & Qual”, que, na edição de 13 de Agosto, contou a sintomática história de uma discoteca – “trata-se mais de uma ‘casa de vómito’ do que de uma discoteca” – que por 20 euros permite que os mais novos bebam todo o álcool que quiserem. “O problema é que há miú-dos a beber até caírem”, refere o “Tal & Qual”. O jornal diz também que a GNR sabe que o álcool é vendido indiscriminadamente a menores (a miúdos de 13 e 14 anos, segundo o jornal), mas pouco pode fazer para o evitar pois as multas são manifestamente incapazes de prejudicar um negócio de “êxito garantido”. A pormenorizada reportagem do “Tal & Qual” revelou ainda, por exemplo, que “apedrejar carros e pessoas é o que ‘está a dar’ entre a pequenada” e que há jovens que “saem ‘praticamente em coma’ da discoteca”.

Se, entre nós, a exploração alcoólica de crianças e jovens não parece suscitar preocupação de maior, em Espanha, o mesmo não sucede. Montserrat Tura, a responsável pela pasta do Interior no governo autónomo da Catalunha, que o Partido Socialista lidera, garantiu, na terça-feira passada, que se vai empenhar em pôr fim ao que designou por “turismo de borracheira”. Montserrat Tura, citada pelo diário “La Vanguardia”, censurou ainda a organização de rotas de autocarros “em busca do coma etílico”. As declarações da senhora vieram a propósito de uma cena de pancadaria que opôs, em Lloret del Mar, jovens bêbedos estrangeiros aos Mossos d’Esquadra (a polícia catalã).

Os empresários da noite, ouvidos pelo diário catalão, evidentemente, reagiram bastante mal aos propósitos de Montserrat Tura, que declarou uma guerra aos estabelecimentos de diversão nocturna que não cumpram a legislação em vigor. Entre os que aplaudem a conselheira do Interior, está “La Vanguardia”, que, numa nota editorial, defendeu que “é preciso que estas situações se abordem corajosamente atacando as causas antes dos sintomas”.

O jornal, sublinhando a relevância do assunto, adverte que “o progresso económico e material ou a legítima busca de beneficio empresarial não devem confundir-se com egoísmo, competência desleal ou falta de solidariedade” e diz que chegou a hora de os municípios e a sociedade civil reflectirem seriamente sobre o tipo de país em que querem viver. Por cá, uma discussão idêntica também podia ser útil.




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