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Aparência e realidade

Vivemos no mundo como personagens de um filme, mais ou menos longo, gravado em directo. Sem memória. Sem guiões. Sem luzes ou cenários artificiais. Nem sempre com disfarces convincentes.

N/D
22 Ago 2004

Vivemos no mundo como personagens de um filme, mais ou menos longo, gravado em directo. Sem memória. Sem guiões. Sem luzes ou cenários artificiais. Nem sempre com disfarces convincentes.

O ser humano é um mero actor neste palco gigante onde ninguém sabe de cor o seu papel.
Improvisa-se. Representa-se. E não há lugar a repetição. O que fica gravado torna-se irremediável. E voltar atrás nunca nos assegura regressar ao mesmo ponto…

Cada cenário deste palco encerra em si a possibilidade de um olhar com duas perspectivas: a aparência e a realidade. E porque trazemos em nós a potencialidade de construir todos os cenários, ensaiamos as mais diversas poses e discursos, na tentativa de conseguir a perfeição.

Neste trajecto, esbarramos inevitavelmente com o que somos e com o que parecemos ser, nem sempre sabendo ou querendo distinguir estas diferenças. Porém, fica sempre a mesma dúvida: onde termina a realidade e começa a aparência?

Um dos maiores e mais fascinantes mistérios que a vida nos reserva, é o facto irrefutável de cada ser humano ser único e irrepetível, o que de imediato sugere a dificuldade de fazer comparações, ter certezas absolutas e ajuizar sem margem de erro sobre o que se passa verdadeiramente no precioso cofre secreto que é o pensamento humano. Consequentemente, é difícil, senão impossível, aferir a correspondência entre o que se diz e o que se pensa. Porque todos os pensamentos são secretos…

Por um só momento, façamos de conta que todos os pensamentos são transparentes e cada um de nós os poderá ler no outro, à medida que se vão produzindo. Façamos ainda um esforço no sentido de imaginar um mundo onde esta possibilidade fosse real e ensaiemos um novo comportamento diário, como se os nossos pensamentos fossem imediatamente legíveis por todos os que interagem connosco. Qualquer coisa como olhar de frente o espelho e ser capaz de distinguir e separar o essencial do acessório, a realidade da aparência, tendo a coragem de integrar imperfeições e fragilidades, partilhando-as num sublime gesto de autenticidade.

Acredito que vale a pena fazer este exercício de busca de auto-conhecimento, através de uma atenção consciente e permanente a nós próprios. Talvez possamos constatar as consequências que cada comportamento provoca no outro, compreendendo então o enorme poder, nem sempre consciente, que cada um transporta consigo e cuja parcela é responsável pela qualidade das nossas relações e (porque não?) pela qualidade do mundo onde vivemos.

O mal estar que se vive frequentemente no seio das relações interpessoais, provoca invariavelmente alguma ansiedade e esta provém em grande parte das pequenas grandes incoerências por trás das quais nos escondemos para ocultar quem verdadeiramente somos. Como se fosse mais importante aquilo que parecemos!

Segundo OSHO, a ansiedade é o estado tenso entre o que nós somos e aquilo que deveríamos ser e por isso mesmo nos aconselha a arriscar tudo pela verdade, sem a qual continuaremos sempre insatisfeitos. Este filósofo indiano, recomenda três princípios a observar para se ser autêntico.

O primeiro, é não prestar atenção ao que os outros nos dizem para ser, escutando antes aquilo que somos através da nossa voz interior.

O segundo, é nunca usar uma máscara. Se estivermos zangados, mostremo-nos zangados, porque sorrir nestas condições será falso.

O terceiro, é ficar sempre no presente, porque toda a falsidade ou entra pelo passado ou pelo futuro.

Por estranho que pareça, a felicidade de cada um passa por aqui – a capacidade de ser autêntico e transmitir essa autenticidade na relação quotidiana com o outro. Se cada um fizer a sua parte, certamente o mundo mudará de cor. Porque todos somos espelhos uns dos outros…

Vale a pena reflectir acerca destes sábios princípios e verificar a repercussão que eles são capazes de ter nas nossas vidas. Somos responsáveis por todos os cenários que construímos, sejam eles pensamentos ou acções.

Aprender a distinguir a aparência da realidade dá-nos a oportunidade de contribuir para um cenário diferente, no qual o papel que cada um representa coincida cada vez mais com aquilo que cada um é. Mas esta busca de verdade terá que começar dentro de cada um.

Talvez então, aparência e realidade sejam sobreponíveis e nós possamos ser aquilo que escolhemos ser, descobrindo um sentido e uma forma mais saudáveis de estar no mundo…




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