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Apontamentos “ao acaso”

Remetidas as pessoas aos seus “casulos”, houve a oportunidade de se ver na televisão que a inesperada visita afinal se estava a passear por todo o lado, de Norte a Sul do país

N/D
21 Ago 2004

1. É por vezes “ao acaso” que a Vida nos leva a pensar no apoio que se dá a pessoas que dele precisam ao percorrerem os caminhos da mesma Vida. Dessas pessoas recebem-se normalmente verdadeiras lições, reveladoras da força que lhes permite fazer esses percursos enquanto caminham, qualquer que seja o trajecto que têm de percorrer e/ou o tempo de que necessitam para o fazer.
Talvez se lhes aplique, melhor que a muitas outras, a expressão “Deus dá o frio conforme a roupa”.
Eu permitia-me talvez dizer que essas pessoas “vestem a roupa conforme o frio que sentem”; desde aquelas que percorrem um túnel tão comprido (por vezes quanto a sua vida) que não vislumbram uma luz ao fundo dele, até àquelas outras que o percorrem “às escuras” mas com a esperança de um dia verem a tal luz lá ao fundo. Exemplos?! São mais que muitos; é só abrirmos os olhos em redor de nós. E se quisermos ter a satisfação de ver um enorme agradecimento é só darmos-lhes um pequeno sinal de apoio.

Todas estas considerações têm como suporte caminhadas essencialmente morais, que desgastam tanto ou mais que as propriamente físicas. Mas talvez seja uma novidade que afinal também estas últimas carecem de apoio moral; algo move os viandantes a “meterem pés a caminho” (poucas vezes a expressão é tão apropriada) e percorrerem Caminhos (de Santiago ou outros…), por vezes com tantos quilómetros que é preciso fazê-los por etapas. Daí que expressões como “Obrigado pelo telefonema / ou pelo SMS (que bom os telemóveis ao serviço dos peregrinos) e continuem connosco” ou “É bom saber que estão connosco em pensamento, pois isso dá-nos mais alento para continuarmos a caminhada” sejam ouvidas com admiração por quem nunca esteve desse lado da barricada, que se limita a contrapor: “Mas eu não faço nada de especial, pois se até estou em casa comodamente sentado(a) numa cadeira”.

2. O local é agradável. Fora do bulício citadino e longe do stress diário do ano inteiro, é procurado por muitos que querem fugir, temporariamente, do primeiro e recuperar, na medida do possível, do segundo.

Lá há tempo…

… para ouvir a voz do silêncio e os sons da Natureza; … para saborear couves que sabem a couves do campo; … para ver aquele pequeno pássaro (só sei que não era pardal) subir e descer o tronco da árvore a passo, como que a mostrar que tem as garras na ponta da unha; … para apreciar o carinho com que um filho acompanha a mãe já alquebrada pela idade, quiçá a devolver-lhe a ternura que dela recebeu em pequenino.

O local é tão agradável assim no Verão que até o Inverno resolveu lá ir passar uns dias… Surgiu pela calada da noite, quando todos estavam num despreocupado sono, para ninguém dar pela sua chegada; de manhã foi-os acordando aos poucos, uns de cada vez, com a sua irritante e indesejável melodia, sendo recebido por uma bátega de impropérios mais ou menos silenciosos.
Remetidas as pessoas aos seus “casulos”, houve a oportunidade de se ver na televisão que a inesperada visita afinal se estava a passear por todo o lado, de Norte a Sul do país.

3. As novas tecnologias desenvolvem-se a um ritmo cada vez mais alucinante, podendo-se talvez dizer que a crescente rapidez com que evoluem “é inversamente proporcional” à passagem do tempo. Como consequência disto vão surgindo, entre outros, dois tipos de pessoas, os “peritos na matéria”, mais os “Sócrates” dos tempos modernos que afirmam: “De informática só sei que nada sei”. Basta pensar que se podem gravar dezenas de DVD’s em escassos minutos quando não vai para tantos anos assim apareceu a grande novidade que foram os CD’s. Com tal velocidade não há limites que lhe resistam. As “velhas tecnologias” vão ficando para trás a um ritmo cada vez mais rápido também. E quanto mais para trás tanto mais obsoletas, mas ao mesmo tempo mais curiosas, se tornam. Do tempo dos meus “avôs” (que eu não cheguei a conhecer) eram as grafonolas, que mal me lembro de ver e ouvir tocar na infância; se bem recordo, cada vez que se punha um disco a tocar gastava–se uma agulha. Quem não conheceu estes aparelhómetros que dirá quando souber que era preciso dar-se à manivela para se porem a funcionar?…

É dessa época um episódio que aos olhos de hoje terá tanto de caricato como de engraçado. Algures para o interior do país, tendo certo indivíduo comprado uma grafonola, quis mostrar tal “modernice” a um familiar que vivia uns quinze quilómetros afastado. Mas como transportá-la? No alforge da mula estava fora de questão, certamente porque a “novidade” podia desconjuntar-se com os solavancos; carro não havia naquela família de agricultores e ademais nem os caminhos a percorrer seriam apropriados. A solução encontrada foi contratar uma mulher que transportou o aparelho à cabeça, dentro de um cesto, para um lado e para o outro, de regresso.

Pesava um disco maior de grafonola (como um LP) cerca de trezentos gramas, e um mais pequeno à volta de duzentos; e só tinham uma música em cada uma das faces, isto quando ambas eram gravadas.




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