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Chover no Molhado (42)

Quando oiço dizer – esta pessoa pensa bem – digo a mim mesmo: se pensa bem e este bem é uma consequência da união e cooperação entre todas as formas de pensamento, essa pessoa tem o meu respeito, estima e consideração

N/D
20 Ago 2004

Duas afirmações se fizeram no artigo anterior. Uma considera que a Razão Pura não pode ser a autoridade suprema do pensamento.
Esta autoridade desloca-se, legitimamente, para a pessoa, pois a pessoa humana é que é o centro de onde irradia todo o pensamento. Há, portanto, uma necessidade de dizer de maneira breve, clara e distinta o que é o pensamento e quais as suas atribuições.

Afirmar a superioridade da Razão é supervalorizá-la. E a supervalorização traz sempre consigo pesadas e aborrecidas consequências.

Afirmar a pureza da Razão é, para ela, uma demasiada autonomia e nós queremo-la, sim, independente, mas unida e cooperante, trazendo a sua união e cooperação uma chuva de bens para a pessoa. Por isso, também fizemos a afirmação que a Razão de nada se pode desembaraçar.

Mas afirmar da Razão a sua autoridade suprema e afirmar que a própria exige pureza, desembaraçando-se do já referido no artigo anterior, é uma imposição violenta e desajustada da pessoa sobre a Razão.

A pessoa, agora, não actua em liberdade, porque é estimulada a actuar sob muitas pressões. E podemos encontrar estas pressões, tanto para o bem como para o mal do pensamento racional, nos seus bebedouros, entre os quais a experiência passada e os preconceitos culturais e sociais.

Contudo, também não deixo de pedir desculpa, por estas afirmações, aos filósofos actuais e aos que já há muito partiram desta vida, entre eles Decartes e Kant. O mesmo quero fazer para com os filósofos tomistas que afirmam, com orgulho e o peito cheio de ar, “… a luz natural da Razão”. Mas digo, embora seja um filho académico desta ilustre família, que “a luz natural da Razão” não é correcto mas sim “a luz natural para a Razão”.

Porque a Razão não é como o sol que projecta a luz que vem de si mesmo, mas recebe-a de um sol que é, por exemplo, a realidade concreta. A razão, de um modo geral, tem olhos para acolher a luz. E, se vê mal, não é propriamente devido aos seus olhos, mas sim a todo o nevoeiro ou obstáculo mais espesso que se interpõe à realidade.

Continuemos, agora, com os pés assentes nos “desembaraços” operados pela Razão e tidos, segundo os racionalistas, por funções da sua autonomia, em ordem à construção da ciência e, simultaneamente, ao crescimento do progresso.

Será a Razão do homem, nestas funções, vírus provocador da crise em que se encontra o pensamento?

Vou começar pelo “Tronco do Pensamento Global”. Novamente vou pedir desculpa pelo que vou dizer, não só aos filósofos mas também aos psicólogos e sociólogos e, porque não também aos fisiólogos.

O meu ser profundo e concreto é espírito materializado e uno. E a pessoa humana é sua filha. Este espírito materializado e uno manifesta-se através destes dois grandes troncos: um é o tronco do pensamento; o outro é o tronco da acção.

Ao tronco do pensamento vou dar-lhe o nome de pensamento global, o qual vai manifestar-se através das suas diferentes e va-riadas formas de pensamento. E quais são estas formas de pensamento? Eis, pelo menos, algumas delas: racional; emotiva e sentimental; intuitiva; social; criativa; sobrenatural; estética…

E o que é o pensamento global? É uma das formas dinâmicos e imanentes do meu espírito materializado e uno.

Todas as formas diferentes e variadas do pensamento global têm de estar unidas, conectadas, abertas umas às outras e cooperantes entre si. Tudo no todo deve estar harmoniosamente unido e em ordem ao Amor, porque o Amor nada rejeita a tudo penetra. O Amor é que é a suprema autoridade, a quem própria pessoa, como autoridade, deve obedecer.

Quando oiço dizer – esta pessoa pensa bem – digo a mim mesmo: se pensa bem e este bem é uma consequência da união e cooperação entre todas as formas de pensamento, essa pessoa tem o meu respeito, estima e consideração. O meu louvor está junto dela como a vela acesa está no altar.

Vamos ver, então, o que acontece ou pode acontecer ao pensamento racional, na ânsia de se purificar, quando se desembaraça ou quando trabalha a seu belo prazer, os pensamentos emocional e sentimental.

Que acontece? Alteram-se as suas decisões supostamente racionais. Desnorteia-se a razão. Empobrece a sua eficácia e clareza. Torna-se amorfo, frio, gelado e rígido.

Abdica da compreensão e do carinho para com os outros. E quantas e quantas vezes ostenta o seu carácter altivo, desumano, sanguinário e despudorado nas suas relações com os outros. E não se pense que este pensamento racional é próprio de estúpidos, pois o Q.I. ou a eficiência mental é, por vezes, superior ou até genial. Neste caso, a Razão do homem é provocadora da crise em que se encontra o pensamento.

Vamos aos factos: passemos uma rápida vista de olhos sobre o Holocausto a que foram submetidos, sem dó nem piedade, os judeus, os ciganos, os enfezados, os estropiados, os doentes e dementes, na Alemanha e não só antes e durante a 2.ª Grande Guerra Mundial: espoliados; desempregados; perseguidos; torturados; queimados; gaseados; humilhados; despersonalizados; explorados; usados como cobaias.

Para mais, auscultemos, os campos de concentração como Auschwitz, Treblinka, Sobibor e outros. Perguntemos também a Hitler, Goebbels, Himmler, Hoss, Franz Stangl, Josef Mengele, Wirth…

(Continua)




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