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Cristãos na política

A militância política é um campo de actividade aberto à participação dos fiéis leigos

N/D
19 Ago 2004

No discurso proferido na abertura dos trabalhos da 156.ª assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, em 19 de Abril, D. José Policarpo referiu-se ao 30.º aniversário do 25 de Abril.

A certa altura afirmou: «Com a mesma clareza que assumimos que nós, os Pastores, não nos imiscuímos na política partidária, desafiamos os fiéis leigos a empenharem-se, com a lucidez e o espírito pascal, em todas as frentes onde se decida a construção de um Portugal democrático com qualidade, com generosidade, com a lucidez das opções claras e da definição de objectivos válidos. Através deles a Igreja tem de estar na política, porque quer participar na construção de um Portugal melhor».

«A Igreja – disse também – não é de esquerda, nem de direita; os cristãos, individualmente, podem sê-lo. Mas reconheço claramente que tanto à esquerda, como à direita, há modelos de sociedade que não cabem no quadro da doutrina social da Igreja».

Penso que, mais claro, não se pode ser. A militância política é um campo de actividade aberto à participação dos fiéis leigos, que assumem a responsabilidade de baptizar o temporal, e não aos bispos nem aos padres, que têm mais que fazer e mais com que se preocupar.

Os fiéis leigos não devem temer a política, não devem fugir da política, mas devem, se para isso têm disponibilidade e se para isso se sentem vocacionados, intervir no mundo da política, não se esquecendo da sua condição de cristãos. Há modelos de sociedade que, coerentemente, não podem merecer a sua concordância e com que, coerentemente, não devem colaborar.

E é possível ser cristão na política?

Estou persuadido de que sim. E aponto o exemplo de três homens que souberam fazer política e manterem-se fiéis ao seu ideal cristão, de tal modo que até se fala na sua possível beatificação. Refiro-me, muito concretamente, a Robert Schuman, a Giorgio La Pira, a Igino Giordani. Como poderia falar, entre outros, de Konrad Adenauer e de Alcide De Gasperi.

Concluiu-se em 29 de Maio a fase diocesana do processo de beatificação de Robert Schuman, um dos fundadores da Europa unida, para o que teve de se empenhar seriamente na reconciliação franco-alemã. Tendo vivido entre 1886 e 1963, foi o primeiro parlamentar francês preso pela Gestapo durante a II Guerra Mundial.

Mais tarde uniu-se à resistência. Após a guerra, foi nomeado chefe do governo francês (1947) e ministro do Negócios Estrangeiros (1948-1952). No exercício destas funções foi um dos autores da declaração de 9 de Maio de 1950, onde lançou a ideia de colocar a produção do carvão e do aço sob uma alta autoridade comum, numa organização aberta à participação de outros países da Europa.

Assim nasceu, em Abril de 1951, a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), integrada pela França, Alemanha, Itália, Holanda, Bélgica e Luxemburgo, que veio a dar origem à actual Comunidade Europeia. Entre 1958 e 1960 foi o primeiro presidente do Parlamento Europeu.

Soube construir a unidade vencendo ódios e rancores e procurou construir a paz não através da força mas mediante uma verdadeira reconciliação. Para ele o Catolicismo não era só uma fé mas uma doutrina social e entendia o seu trabalho político como prolongamento do seu apostolado.

Ocorreu este ano o primeiro centenário do nascimento de Giorgio La Pira: nasceu perto de Siracusa em 9 de Janeiro de 1904 e faleceu em Novembro de 1977. Foi um intelectual – era Professor Catedrático de Direito Romano – que durante a guerra e após a guerra se dedicou de alma e coração ao serviço dos mais desfavorecidos, tendo, na Itália, exercido as funções de membro do Parlamento e do Governo e de administrador de Florença.

Um homem que datava as cartas com o nome do santo do dia e que, mesmo sendo leigo, sabia encontrar tempo para rezar a Liturgia das Horas, que naquele tempo se chamava Breviário.

Escritor, professor, director de jornais e conferencista, Igino Giordani, falecido em 18 de Abril de 1980, foi também terceiro dominicano e o primeiro focolarino casado. Eleito deputado no pós-guerra, quando De Gasperi era primeiro ministro italiano, soube viver a política como «apostolado e penitência». «Não são os partidos o nosso cilício?», perguntava. Interrogava-se sobre se um político podia ser santo e se um santo podia ser um político. Procurou, com a vida, mostrar que sim.

Recordei sumariamente três homens que souberam exercer a política activa sem meterem o Cristianismo na gaveta. Que souberam ser políticos e ser cristãos. Ou talvez melhor dito: que foram bons políticos porque procuraram ser bons cristãos. Que por imperativo cristão se dedicaram à política.




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