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Técnicas para amargurar a vida

Tens sempre razão. Amargurar voluntariamente a vida é uma arte que se aprende, pois ninguém nasce atormentado; o atormentado faz-se

N/D
18 Ago 2004

Para se chegar a ser um verdadeiro depressivo, é fundamental verdadeira dedicação…
Talvez estejas no rol das pes-soas que tomaram a decisão de tornar a própria vida impossível. Pode ser que já tenhas conseguido uma razoável dose de aflições, culpas e remorsos. Mas acredita que podes ir ainda mais longe, se deitares mão de modernas técnicas que a piscologia te facilita. Resumo algumas receitas infalíveis, que garantem pleno fracasso a quem as seguir sistematicamente.

1.Tens sempre razão. Amargurar voluntariamente a vida é uma arte que se aprende, pois ninguém nasce atormentado; o atormentado faz-se. Para isso, deves pensar que tudo é branco ou negro e que apenas existe uma verdade absoluta: a tua… Rejeita, sistematicamente, o que os outros te digam, sobretudo quando possam apresentar um contributo positivo. Pede-lhes que alcatifem o mundo, porque tu não estás disposto a usar sapatos.

2. Mete-te em problemas. Um autêntico ressentido não se desculpa dizendo que tem problemas: tem-nos de facto. Por isso, vai complicando gradualmente a tua própria vida, até poderes dizer: «estou numa situação desastrosa». Se achas que não tens contrariedades suficientes, absorve as dos outros. Enche a tua vida de graves complicações e amplia as menores, dando grande transcendência a qualquer pequeno acontecimento negativo.

3. Vive obcecado. Escolhe alguma coisa banal que te tenha beliscado, sublinha-a permanentemente e não a afastes do pensamento, até que possas considerar que é uma monomania perturbadora. Além disso, incrementa a tua incapacidade para resolver as dificuldades de cada dia, de modo que os teus problemas cresçam contigo.

Quando tiveres um desgosto, não te distancies; pelo contrário, faz o possível para que te perturbe. E se a situação se alterar, mexe-te de modo que o problema continue com a mesma ou maior intensidade.

4. Nunca te perdoes. Se perdoar aos outros é difícil, perdoar-se a si mesmo ainda o é mais; por isso, nem sequer te esforces. Depressa chegarás à auto-compaixão. Podes deitar todas as culpas a alguém; mas o melhor é carregares tu com toda a responsabilidade, imaginando que tudo o que acontece depende de ti, é culpa tua. Nunca aceites que há situações que escapam ao teu controlo.

5. Rodeia-te de pessimistas Evita todos esses inconscientes que – com vontade e valentia – superaram as suas desgraças; sobretudo, se querem mudar o teu destino de mártir. Reconhecerás que a vida não passa de um vale de lágrimas, onde os que se dizem alegres são apenas uns estúpidos inconscientes. Frequenta os deprimidos como tu, cujo lema seja «isto vai de mal a pior».

6. Agarra-te ao passado. Se queres ser um autêntico infeliz, não deixes que o tempo cure as feridas. Para isso, usa três métodos:

a) sublima o passado, pensando que foi um tempo belo mas perdido, que nunca mais voltará; recorda enfaticamente todos os momentos felizes que já não têm remédio;

b) faz como a mulher de Lot e converte-te em verdadeira estátua de sal, lembrando o passado, de modo que o presente não possa dar-te qualquer felicidade;

c) arrrepende-te do mínimo erro: sobretudo dos que não foram culpa tua, a fim de te deprimires ainda mais e verificares que nada pode curar a tua infelicidade

7. Pensa apenas no futuro. Adia as alegrias quotidianas, pensando que vai tardar muito até que as coisas melhorem. E, até lá, nega-te qualquer contentamento. Conforma-te com o mal conhecido e não desejes nem proves o bem por conhecer. Até podes torturar-te pensando no que te poderá acontecer de negativo, mesmo que haja muitas hipóteses de nada disso suceder. Assim livrar-te-ás de qualquer raíz de esperança…

8. Evita o êxito: Assim como pequenas vitórias conduzem a maiores triunfos, se colocares no teu caminho contínuos obstáculos e desventuras, abrir-se-te-ão as portas da infelicidade total. Deseja utopias, de forma que a tua auto-estima não encontre saída e possas enumerar um rosário de fracassos. Nunca te alegres com nada. Pelo contrário, diz sempre que te falta qualquer coisa e, por isso, não passas de um fracassado.

9. Procura uma desgraça conseguida. Prediz o pior dos cenários e convence-te que o destino te vai conduzir inexoravelmente para lá. Pensa que ninguém gosta de ti e descobrirás como vais conseguir que assim seja. Não te limites a apontar uma suspeita: diz logo que é mesmo verdade. Se acreditares numa boa maldição, é muito provável que a consigas.

10. Não mudes nada. Um verdadeiro amargurado é fiel à sua sina. Por isso, mantém intacto o teu ressentimento generalizado, sem permitir que amigos ou vizinhos te dissipem a escuridão… Aliás, repara que não passam de uns mal intencionados… Não te adaptes nem evoluas. Só tu tens a solução. Insiste nela, em doses cada vez mais abundantes, de modo que seja mais profundo o poço da tua miséria.


A esta lista posso acrescentar mais umas quantas recomendações: cultiva os teus defeitos; nunca saúdes ninguém, pois pode aproveitar para te pedir alguma coisa; não faças favores, porque assim evitas ter de deitar contas ao que te devem; procura culpados e não soluções; se discordas de alguém, corta-lhe a palavra e assim acabam as discussões; diz “não” a tudo; leva todos os problemas de casa para o trabalho e todas as questões do trabalho para casa; franze o sobrolho para que saibam que desconfias de todos; segue à risca o olho por olho e dente por dente; e se te parecer que alguma coisa corre bem, desconfia, uma vez que o que sobe desce…

Segues este elenco? Estás a fazer tudo o que podes para seres um verdadeiro desgraçado? É que se amargurares a tua vida, terás uma outra vitória: conseguirás amargurar a de todos os que te rodeiam… 




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