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É necessário o exame das realidades e coragem para as enfrentar

Entre nós a impreparação moral de muitos, a não aceitação das responsabilidades que lhes cabem nos cargos que ocupam, a própria dignidade pessoal e importância social do cargo que exercem pesam bastante em quem aceita ocupar lugares de natureza social, que implicam responsabilidade do cargo e respeito da função

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18 Ago 2004

Com o novo Governo a cuidar de organizar um bom programa de acção e a chamar gente nova para o trabalho que se torna necessário e urgente, registou-se uma actividade desusada entre nós: fazer um trabalho que leve o País a servir o bem estar de todos os portugueses.
Este trabalho coincidiu com um artigo de Rosado Fernandes na semanário “O Diabo” de 20 de Julho com o título: “Governo novo, vida nova?”. É conveniente ler o que o autor escreveu para vermos melhor a realidade política portuguesa e, consequentemente, a exigência que o facto traz a todos os portugueses.

Escreve Rosado Fernandes: “Existe uma evidente rede de corrupção, do Sul ao Norte do País, conhecida de todos os governantes. Não só nas autarquias, mas igualmente nas privatizações, houve negócios mais do que escuros. Na escolha de pessoas para lugares de responsabilidade houve casos autênticos de nepotismo. Não se conseguiu, que a Arte de Furtar, de autor anónimo do século XVII, deixasse de ser modelo do comportamento português. É uma arte mais do que centenária, é milenária.

Ora a única forma de a combater, num País de tradição monopolista e corporativa, em que se colocam, à frente de todo o género de empresa estatal, não os mais competentes, mas os mais obedientes, que se compensam com favores inconfessáveis, é a de prestigiar a instituição da Justiça, obrigando-a a cumprir a sua obrigação, seja nos casos de corrupção autárquica, seja com o «apito dourado», seja com a pedofilia. A justiça é o fundamento na democracia que para o crime não compense, como é agora o caso”.

O texto que transcrevemos é violento, pois está a condenar atitudes que deformam a justiça, e a própria política.

E tem, ao mesmo tempo, uma nota de interesse particular: não esconde os culpados que, por vezes, usufruem dos cargos que ocupam para se cuidarem a eles e não a sociedade.

Esta análise merece ser bem estudada e analisada por quem assume funções de administração pública, pois que a própria função lhe impõe.

Entre nós, a impreparação moral de muitos, a não aceitação das responsabilidades que lhes cabem nos cargos que ocupam, a própria dignidade pessoal e importância social do cargo que exercem pesam bastante em quem aceita ocupar lugares de natureza social, que implicam responsabilidade do cargo e respeito da função. Rosado Fernandes é corajoso e é frontal.

O serviço público, infelizmente, sofre uma crítica que se impõe a bem da Justiça e da sociedade. Mas não são suficientes as leis coerciva a exigir todos os elementos indispensáveis para uma acção eficaz que implique a formação pessoal e a reforma da sociedade.

Como enfrentar uma situação social que descura os princípios básicos da formação no plano familiar, escolar e profissional.

A experiência, quando realizada com a visão séria de uma boa formação ajuda a colaborar na solução de problemas.

Que acontece hoje? Os alunos frequentam as escolas e procuram subir até à Universidade. Os pais estimulam este avanço para as alturas académicas e para o serviço profissional.

Que acontece entre nós? Responde José Hermano Saraiva: “As pessoas de verdadeiro valor estão fora das universidades. É chocante ver docentes apresentarem-se com o título de «prof. Dout.» cuja indigência mental é evidente a todas as luzes. Os erros do sistema de ensino residem essencialmente nos professores. Os alunos são apenas um dado do problema”.

Entre nós, infelizmente, não se ouvem, por parte dos responsáveis, da educação e da formação dos alunos, afirmações objectivas que modifiquem a situação. É pena que tal aconteça, porque o cargo impõe responsabilidades de função eficaz.

Este problema não tem sido visto, e, portanto, não tem sido estudado com o respeito devido e o interesse cultural dos que frequentam as escolas e as universidades. O resultado está à vista. Predomina o funcionalismo que garante a subsistência.




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