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As dificuldades de julgar o passado

Não julguemos o passado com superficialidade. Sejamos justos e prudentes

N/D
17 Ago 2004

A Igreja Católica, a confissão religiosa cristã mais numerosa e com mais tradições no historial humano, surge com frequência como alvo de ataques dos seus detractores, que vêem o seu passado com acerbo rigor.
O “cliché” da Inquisição continua a ser um tema recorrente, mesmo depois de toda a desmistificação que, em boa hora, promoveu o actual Papa João Paulo II, que, sem complexos e sem vergonhas estéreis, deu por assente que se houve erros contra a caridade, por parte de membros da confissão religiosa que dirige, devem ser reconhecidos e pedir perdão aos que foram ofendidos.

E não só elaborou a teoria, como a levou à prática com factos concretos por demais conhecidos.

Este pedir perdão, contudo, para não se tornar um exercício de retórica insensata ou depressiva, deve reportar-se a factos objectivos, estudados rigorosamente pela ciência histórica, enquanto pertença do passado. Não se pede desculpa pelo que se não fez.

Seria um absurdo.

Por isso, é de toda a justiça para com os nossos avoengos, calibrar bem quais foram as suas falhas efectivas. Vê-las à luz do seu tempo, estudar com cuidado que razões presidiam a tomadas de atitude desse tipo e, só depois, quando se notar com a meridianidade moralmente possível que houve falta de caridade, realizar o exercício do perdão.

De outro modo, podem cometer-se juízos de valor errados e injustos, porque aplicamos às situações do antanho a nossa forma de perspectivar as questões, sem ter o cuidado de procurarmos entender o próprio passado.

Recorramos a alguns exemplos.

Nos finais do século XIX um pedagogo famoso alemão, advogava como orientação educativa dos jovens, dobrar-lhes a vontade. A sua posição foi então bem aceite por muita gente. Hoje, tal teoria parece-nos uma heresia pedagógica e apresenta-se-nos como uma violência incompreensível.

Sem sairmos do campo da pedagogia, lembramo-nos que nos anos setenta se impôs como uma necessidade pedagógica imperiosa a coeducação. Muito defendida por todo o mundo, nela se via uma espécie de boa solução para os resultados académicos e educacionais dos jovens, sobretudo das raparigas, que eram consideradas as vítimas principais da educação juvenil separada.

A vaga feminista de então foi uma das suas grandes advogadas, embora actualmente haja entre esses quadrantes muitos desencantos e críticas a seu respeito. Uma conhecida feminista alemã já a considerou há uns anos como a ko-educação. Nota-se, assim, que começa a retroceder-se na sua confiança, porque os resultados académicos coeducativos, além de não serem concludentes, desiludem em muitos aspectos.

Na Grã-Bretanha, uma investigação da National Foundation for Educacional Research (Julho de 2002) sobre 370.000 alunos de escolas públicas assinala que o rendimento dos estudantes de centros de ensino com educação separada era manifestamente superior.

Também na Suécia se verificam alertas em relação ao problema da omnipresença da coeducação nas escolas, pelo que a Ministra da Educação, Beatrice Ask, através de um estudo por ela accionado através de uma comissão presidida por Chris Heisler, concluiu que a “coeducação conserva e conduz a extremos negativos”.

E acrescenta: “demonstrou-se que as raparigas, entre os 7 e os 15 anos, assimilam com mais rapidez e aprendem mais que os rapazes, ao passo que no ensino sequente sentem mais dificuldades. Além disso, é preciso ter em conta que as raparigas alcançam a maturidade muito antes dos rapazes e embora tenham a mesma idade, não podem tratar-se de igual maneira”.

As concepções, como vemos, oscilam e é necessário perceber as suas alterações, o que as motiva, as sua origens, o seu desenvolvimento e a sua evolução. Sem o recurso a estes parâmetros, os juízos que fazemos são sempre vulneráveis, superficiais e precários.

Não temos, por isso, o direito de emitir um parecer condenatório de toda a gente – incluindo as feministas – que defenderam a coeducação com tanto entusiasmo como sistema ideal ou, pelo menos, preferencial, perante os sucessos menos abonatórios que hoje se constatam, após trinta anos de experiência massiva.

Voltando ao mundo religioso, é habitual, como se dizia atrás, que os historiadores nos falem, como um dado assente, do dogmatismo e da intransigência da Igreja ao longo dos tempos. Em compensação, olham com visões indulgentes os reformadores.

No entanto, se formos à liberalíssima Holanda, verificamos que entre 1578 e 1978 foram proibidas aos católicos, pelo menos em Amsterdão, manifestações de fé tão normais como uma procissão.

Em 2004, ou seja, no presente ano, realizou-se, pela primeira vez, em Amsterdão, desde a primeira data citada, a procissão do Corpo de Deus, com larga e jubilosa presença de fiéis.

Não há muito tempo, um amigo meu me mostrava a fotografia do interior de uma belíssima catedral – passada a protestante – do mesmo país, de finíssimo recorte clássico, com as imagens de Nossa Senhora e dos santos descabeçadas ou deterioradas, devido a uma onda iconoclasta dos reformadores de há séculos.

Não julguemos o passado com superficialidade. Sejamos justos e prudentes.




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