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Exorcizar ressentimentos… à portuguesa

Se há característica que os portugueses têm ainda muito viva é essa de teremdificuldade em ultrapassar as vitórias/sucessos/conquistas dos outros

N/D
16 Ago 2004

Se há característica que os portugueses têm ainda muito viva é essa de terem dificuldade em ultrapassar as vitórias/sucessos/conquistas dos outros, sejam de familiares, sejam de vizinhos (amigos ou adversários) e, sobretudo, quando esses feitos podem denunciar a incapacidade do próprio em fazer melhor.

Por outro lado, nota-se ainda a urgência em querer mostrar serviço – empresarial, político, social ou eclesial – nesse imediatismo desmedido onde a semente não tem tempo para germinar, pois já se quer ver resultados a todo o custo… procurando atingir fins sem olhar a meios.

Há tempos – em jeito anedótico – ouvia: este terreno não dá couves nem batatas nem feijão? Dar dá, mas é preciso é que seja semeado!

De facto, quando nos comparamos com outros países da Europa – pois são estes a nossa referência – vemos que as coisas crescem com programação, dando tempo às iniciativas, permitindo consolidar os projectos e esperando pacientemente (embora já previsto) os resultados. Ora em Portugal queremos recuperar o tempo perdido com essa mentalidade de ‘fast food’ (comida rápida) e ‘coca cola’, onde se mete a moeda e saí logo tudo pronto sem esforço, grande proveito e contentamento!

E se, porventura, alguém vence mais rápido do que o ponto de avaliação/juízo, logo está sob suspeita: ‘ali há coisa’, ‘donde vem tanto dinheiro?’, ‘quem será o padrinho/madrinha?’, ‘ainda se vai descobrir…’, ‘mais tarde ou mais cedo se saberá a verdade’, etc.

Poder-se-ia dizer que em cada português mora (consciente ou inconscientemente) uma pessoa ressentida consigo mesmo, com os outros e com a sorte da vida. Desta forma se compreenderá melhor algum azedume para com as malhas da existência, na medida em que a muito custo se tolera a vitória daqueles que não sejam da nossa cor partidária, da nossa sensibilidade social ou religiosa ou de idêntico clube… desportivo e não só!

Vejam-se as atitudes de mal- -estar psicológico e incomodidade ideológica com que alguns responsáveis partidários (sobretudo da dita ‘esquerda’) leram a designação do antigo primeiro-ministro português Durão Barroso para presidente da União Europeia.

Foi acusado de fugir, de abandonar o país, de preferir o sucesso pessoal às dificuldades de governo. Como a memória é curta! Mas Mário Soares não deixou o governo para se candidatar a Presidente da República? E Jorge Sampaio não saiu da Câmara de Lisboa (a meio do mandato) para também ser candidato à mesma Presidência da Nação? Será que certos lugares ao nível europeu (ou mundial) têm menos significado do que os postos intra-muros? Ou teremos de esperar o desemprego/jubilação dos titulares (mais importantes e vistosos) para que estes sejam tidos na devida conta?

A nossa ideotossincrasia ganha pontos aos mais distraídos do panorama terceiro-mundista. É de pasmar tanto ressentimento mal digerido entre aqueles que fazem (ou tentam fazer) a vida pública/política nacional. Até onde irá a incapacidade de exame (seja de consciência seja de consciencialização) ao ridículo a que nos temos exposto? Teremos de suportar por muito mais tempo a exaltação daquilo que é estrangeiro em detrimento do que é nosso?

Ainda temos muito a aprender… nesta nossa tão frágil democracia!




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