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“As árvores morrem de pé”

“As árvores morrem de pé”: os Homens erguem-se do pó

N/D
16 Ago 2004

Num dos dias de canícula, estava o Agosto no seu exórdio, conduzi o meu veículo para os lados de São João da Ponte, Braga, não com a intenção de orar ao Santo – que me perdoe – mas para usufruir calmamente das sombras benfazejas do seu arvoredo.
Foram horas verdadeiramente balsâmicas, em que purifiquei os meus pulmões com o oxigénio exuberante das frondosas árvores que envolvem o parque.

Gostei de todo aquele am-biente meigo e acolhedor, este ano limpo e bem cuidado, ao contrário de anos anteriores em que me pareceu menosprezado. Finalmente, pareceu-me ser objecto de especial atenção, ele que é um dos mais belos espaços da “Cidade dos Arcebispos”, e que emoldura o majestoso Estádio 1.º de Maio.

Digo “majestoso” de propósito, pois comparado com o novo Municipal, supera-o de longe em grandeza, por toda a sua granítica construção.

Pode não ter as condições visuais, técnicas e modernas do novo, mas ultrapassa-o pela rigidez e durabilidade dos seus materiais, prontos a desafiar os séculos vindouros, se bárbaros armados de picaretas e caterpillars o não desfizerem.

Mas a respeito das “irmãs árvores”, como São Francisco as trataria, só notei um defeito: foi a morte natural de algumas delas, que perderam vitalidade e secaram, deixando penetrar a luz ardente do sol através duma parte do parque (lado sul).

“Morreram de pé”, como reza o ditado. E lá estão assim, à espera que alguém lhes dê leito para descansarem e servirem de combustível nos dias frios de inverno.

Pedem também para serem substituídas por uma nova geração que faça o que elas já fizeram: servir de dossel aos amantes da natureza pura e salutar, e rivalizar com a água límpida que jorra da fonte que alimenta o belo lago cor de esmeralda.

O título deste artigo corresponde infelizmente a uma triste realidade do nosso país: os incêndios que todos os anos lavram nas nossas florestas e que destroem milhares de plantas de pequeno, médio e grande porte, incluindo zonas protegidas. É todo um espectáculo macabro aquele que os nossos olhos contemplam amargamente.

Os incêndios que devoram as florestas revelam a Portugal e ao mundo a pouca ou nula educação de alguns filhos degenerados que não se coíbem de enveredar por um caminho de destruição das nossas riquezas naturais.

As árvores morrem de pé, melhor se diriam são assassinadas na força da vida que circula das raízes aos ramos e agora permanecem como estandartes negros duma pobre civilização.

Sirvam de consciencialização dos responsáveis para encontrarem, no futuro, meios capazes de se oporem a esta catástrofe.

“As árvores morrem de pé” tem um simbolismo que podemos recordar nesta ocasião: os grandes homens têm princípios sólidos e sábios e neles perseveram até ao fim. Não se vergam à traição, abjuração e fraqueza, nem pautam a vida por simples critérios economicistas, mas por esses princípios orientam a vida e neles ultrapassam as barreiras do tempo rumo a um destino eterno.

Para além da vida efémera, que o sol doura todas as manhãs, há outra vida iluminada
pelos fulgores da Eternidade cujas barreiras são derrubadas pela tão repudiada morte.

“As árvores morrem de pé”: os Homens erguem-se do pó.




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