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Novo ciclo das migrações

Quando em 1993 regressei ao país, escutei dum governante que o ciclo da nossa emigração tinha terminado. Torci o nariz e pensei cá para mim: não terminou; começou mas foi de outra forma.

N/D
15 Ago 2004

Em 1992 escrevi uma reflexão sobre este novo fenómeno das nossas migrações e uma carta a denunciar a falta de justiça, as explorações de “angariadores” sem escrúpulos. Foi mesmo publicada no Boletim Mensal da Obra Católica de Migrações.
Esta carta alertava o povo português para aquilo a que estavam a ser sujeitos os emigrantes sazonais ou temporários que eram levados, às carradas, por essa Europa adentro.

Na imprensa de hoje (14.11.03) vem a denúncia de que a exploração dos portugueses no estrangeiro está a aumentar. Mais ainda: as primeiras denúncias começaram a chegar à Direcção-Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas em Janeiro de 2000. Apontam-se países como o Reino Unido, a Holanda, a Espanha, a França, a Itália e a Islândia como focos de exploração e más condições de vida. Para reflectir e denunciar esta situação relacionada com a vida dos emigrantes temporários portugueses, teve lugar uma conferência internacional na cidade do Porto.

Leiam, então, o que escrevi em 1992 e foi publicado em Portugal e que também vem publicado no meu último livro, na página 10: “Somos um mosaico (da emigração para a imigração)”: «Quando tudo parecia que a emigração portuguesa iria terminar, ela começou doutra forma, pelo menos para a Alemanha.

Por aqui, ultimamente, tem sido um verdadeiro pandemónio com os chamados emigrantes temporários. A praga chegou à Alemanha e agrava-se de dia para dia.

Aqui no meu escritório e do Assistente Social, todos os dias aparecem portugueses a queixarem-se que não são respeitados os contratos, que não lhes são pagos os salários há dois ou três meses, que não têm de comer, que são postos fora das habitações, que estão em habitações sem terem as condições mínimas de higiene e de espaço. Que são maltratados no trabalho, que os familiares em Portugal já têm problemas com rendas, água e luz, etc., etc. É bem a outra face negra da emigração.

E o que perturba mais é que são firmas e agentes portugueses que estão metidos nesta barafunda. Pululam por aí firmas só para caçarem homens e braços de trabalho com a finalidade de os trazerem para a Alemanha e cometerem exploração sobre exploração.

Já escrevi alguns artigos, já fiz referência nas minhas emissões na RDPIInternacional a estes casos, mas os casos continuam. Peço que utilizem todos os meios ao alcance, e sobretudo neste tempo de Verão e da Semana das Migrações, para alerter os portugueses, as firmas, os patrões, os aldrabões e o Governo para aquilo que se está a passar. Que não façam discursos políticos tão bonitos e optimistas, mas que mergulhem na dureza da realidade actual. É uma miséria. Uma pena. Uma exploração. Uma injustiça».

Os textos que lemos agora, passados onze anos, batem na mesma tecla: «as empresas de trabalho temporário, com ramificações, criam circuitos para ludi-briar pessoas. Prometem muito dinheiro e boas condições». Mas a realidade é bem diferente: «Quando chegam ao destino, confrontam-se com situações de exploração inacreditáveis».

Perante este triste panorama que continua a ensombrar as correntes da nossa emigração, se por um lado é urgente tomar medidas de consciencialização dos direitos de quem busca melhores condições de vida, é também importante actuar sobre essas empresas exploradoras de mão de obra, sem escrúpulos e sem consciência social e laboral.

A emigração (qualquer vertente que ela assuma) é sempre denunciadora dum mal-estar económico e social que se verifica no país. Hoje, o desemprego continua a subir, a imigração também e a emigração também subiu. Três aspectos importantes a ter em conta, se queremos ter uma política de verdade.

Desde 1993, a emigração temporária foi responsável por 67,8 por cento das saídas do país. Só de 2001 para 2002, o número de emigrantes portugueses aumentou de 20 mil para 27 mil, segundo os dados do INE (Instituto Na-cional de Estatística).

Se estes emigrantes são normalmente jovens (entre os 25 e os 45 anos), eles tamém provêm das camadas com pouca escolaridade e sem qualificação profissional. São as regiões do Norte e Centro e ainda Lisboa e Vale do Tejo as mais afectadas.

Há tempos houve uma semana de carácter social, realizada em Fátima, cujo tema de fundo era as migrações. Pouca adesão se verificou. A organização lamentou o facto de o povo português ainda não estar sensibilizado para as questões da emigração/imigração. Tantos anos seguidos feridos pela emigração e agora com a imigração em cima de nós, seria tempo para que esta sensibilização já existisse.

Entretanto, é preciso que ela aconteça, antes que seja tarde de mais.




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