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Uma carta, na estrada de Damasco

1- Um jornal católico e um “leitor assíduo”. Recebeu o Diário do Minho uma carta de um leitor, em radical desacordo com o meu artigo “Um tubarão a quem se chama “cherne””, de 10-07-2004. Recebeu-a e publicou-a, o que faz a prova do seu espírito cristão, ao contrário do que o mesmo leitor insinua no 4.º parágrafo do seu texto. Se ele se diz assíduo leitor do DM e ainda não tem a certeza de que o jornal é de inspiração católica-romana (embora servido por homens livres) então deve ser um pouco distraído…

N/D
14 Ago 2004

Por outro lado, se é assíduo já devia conhecer os meus trabalhos. Por isso, a forma displicente como na carta trata a minha pessoa; e o pouco respeito com que (ao contrário de algumas pessoas ilustres) se refere à minha obra, tiraram algum crédito e sinceridade ao seu depoimento; e tingirão de paixão os seus argumentos, mesmo aqueles que porventura possam à primeira vista parecer mais racionais.

2 – Um leitor que não terá percebido a intenção do artigo. O propósito daquele meu trabalho era múltiplo. Fundamentalmente e em primeiro lugar, criticar a pouca transparência com que a Europa, que nos governa, funciona.

Em 2º lugar, corroborar o pasmo geral com que em Portugal foi assinalada a invulgar e notável promoção de um político habitualmente tão fracturante nas suas opções e com tanta falta de jeito para disfarçar a arrogância.

Em 3.º lugar, relembrar as minhas principais críticas ao papel histórico (já se pode dizer “histórico”) daquele líder. E que são, entre outras, a parcialidade por Luanda na guerra civil angolana, a perda de independência que significou Maastrich (1992) e a demagogia relacionada com o caso de Timor. E no meu texto eu nem sequer falei do apoio activo de Durão à indesculpável invasão americana do Iraque, em 2003.

Já a 4.ª intenção do meu artigo era algo poética (e imbuída até de Cristianismo, de tolerância, de perdão). E consistia no seguinte: o gosto com que até há cerca de dois anos eu criticava o dr. Durão Barroso havia-se em parte, esfumado. Porquê? Por via de um parentesco remoto (mas consanguíneo) do dito político com uma tia avó minha por afinidade. Parentesco do qual só tive conhecimento há menos de dois anos. Foi algo como o que aconteceu a S. Paulo na estrada de Damasco. Por intervenção divina, o perseguidor desiste de o ser.

3 – Algumas contradições e inverdades da carta. A carta do leitor Esteves Ferreira, por mais encomiástica que tente ser em relação a Barroso, cai, logo a meio do seu 1.º parágrafo, numa contradição insolúvel. Pois não é o próprio Esteves Ferreira a afirmar sem rodeios (linha 15): “O Dr. Durão Barroso pode ter todos os defeitos e mais um (…)”.

Digo então, se o leitor é o próprio a admitir por escrito, que o seu ídolo pode ter “todos os defeitos e mais um”, porque é então tão intolerante com os outros (como eu) que nem sequer lhe apontam “todos os defeitos e mais um”, mas apenas alguns e bem documentados? Há “lapsus linguae” que não são simples “lapsos calami”, mas verdadeiros borrões numa pintura… Com aquele reconhecimento explícito, a restante argumentação ficará extremamente caduca.

Outra contradição do leitor está no início do 2.º parágrafo, quando afirma que “não é a favor da censura”, mas dá a entender que o meu inocente texto mereceria ser cortado ou suprimido por razões várias (algumas das quais irei analisar a seguir). E aquele leitor não percebe que o artigo é até simpático para Barroso (p.ex., nem sequer fala do Iraque e retrata Barroso como um poderoso “tubarão”).

Por outro lado, a carta do autor exagera de uma forma bem caricata e ridícula, quando diz no fim do parágrafo 4.º que Durão, um pro-americano, um jovem “parvenu” dum país pequeno e marginal como Portugal, um vaidoso “noveau-riche” da Política Internacional é o candidato “encontrado para gáudio (sic) de todos os chefes dos 25 países que compõem a União Europeia”. E Esteves Ferreira acredita plenamente que Barroso é o ídolo de Chirac, de Shoeder e de Zapatero (e que a sua oposição fracturante a estes, durante a tentativa europeia de falar a uma só voz no início da invasão do Iraque é uma divergência de somenos…). Ver sobre isto o fim do 3.º parágrafo da carta.

Diz também, erradamente, que “toda a imprensa estrangeira elogia” Durão. Se fosse esse o caso, e de longe que não é, teria acabado a Liberdade de Imprensa, embora se saiba que boa parte dela não reflecte o sentir dos povos, mas apenas o interesse de alguns poderosos, seus proprietários. Porém, Esteves Ferreira lá me dá alguma razão, pois afirma, no fim da carta, que “aqui em Portugal se pensa e se escreve desta maneira”, isto é, que há muitíssima boa gente que pensa como eu, a respeito da promoção de Barroso.

4 – Xenófobo, eu?! Um dos pontos em que Esteves Ferreira compreendeu pior o meu artigo, foi quando eu descrevi fisicamente o ex-primeiro ministro português (e Deus nos livre se algum dia for proibido a um cidadão, descrever fisicamente outra pessoa, verbalmente ou por escrito, mesmo quando a descrição for negativa). Recorde-se p. ex., que já Fernão Lopes não foi alvo de censura ao descrever que D. Pedro I era “um pouco gago” (vejam o pouco que evoluímos em 600 anos…).

Ora o ditoso neto do sr. Luís António Adão Barroso (de Veiga de Lila) é alto e não muito veloso; daí alguma costela germânica, facto que até será um elogio (suponho que o leitor E. Ferreira não discordará). Disse eu também que o visual do dr. Durão lembrava o de um homem do médio oriente, o de um sumério. Não sei ao certo se o leitor sabe o que é um sumério. Se sabe, com certeza não considerará pejorativa a comparação de Barroso com um membro daquela ilustre civilização dos primórdios do hoje tão vilipendiado Iraque. Se considera, então o xenófobo é o leitor (mas em contraste com a sua intolerância ideológica, eu reconheço-lhe a si o direito de ser xenófobo, estamos num país livre).

Quanto a guarani, recordo-lhe apenas que sou confesso “indianista”, ao ponto de defender a constituição de Estados Nacionais no Peru, Bolívia e Guatemala, daí já vê… Não será o leitor que pensa que os “índios” são sub-humanos?

5 – O temor reverencial dum Estalinismo de Centro. Nas considerações do leitor perpassa também a ideia (nada republicana) de que todos os políticos de craveira atingem um Olimpo qualquer, onde ficam acima das críticas. Diz mesmo, no parágrafo 6.º, que Barroso foi eleito “e ponto final”. Ora isto é politicamente indefensável. Vivemos numa Democracia e somos livres de criticar.

Além disso, o deslumbramento pelas figuras públicas tem de ser bem mais comedido naqueles, como eu, em cuja família e relações sociais elas abundam. E que não seja também vista “maledicência” lá onde só existe crítica fundamentada e construtiva. Inspirada, é certo, por algum amor-ódio dirigido a alguém que é um parente distante da minha tia Maria Emília e um colega de Lisboa. Assim o quis Deus, pelos vistos…




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