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Um exame indispensável

Às portas de um novo ano pastoral, talvez não venha a despropósito um exame sério.Bem pelo contrário

N/D
13 Ago 2004

Num período da minha vida em que celebrava diariamente numa das igrejas da cidade de Braga, à saída da missa era sistematicamente interpelado por uma senhora idosa, que passava toda a celebração a desfiar terços. Quando suspendia estas orações, passava a “concelebrar” e quase me distraía, pois, sabendo o essencial de cor, antecipava-se, qual ponto no teatro…

Depois, já na rua, vinha ao meu encontro, prendia-me a mão que se esforçava por beijar repenicadamente e, de olhos nos meus, declarava: «é que eu, senhor padre, não há ninguém no mundo mais católico que eu!…»

Era, de certeza, uma santa senhora. Mas uma tarde em que eu não tinha a caridade em bom estado, lembro-me de lhe ter respondido: «ainda bem que me avisa; que eu andava desconfiado…»

A boa senhora soube desculpar o meu desabafo impertinente e dele já me penitenciei.

No entanto, expressão idêntica se levanta dentro de mim cada vez que me parece ouvir invocar o santo nome de Deus em vão. Ou, então, quando vejo fazer do cristianismo uma “coisa” melíflua, estragada, informe: um cristianismo que não anuncia nem denuncia; que se conforma e resigna perante as conveniências do mundo; que remete para Deus aquilo que Deus nos pediu que sejamos nós a fazer; que está continuamente disposto a rasgar vestes, desde que não seja obrigado a mexer no coração; que se deixa afunilar, afulanar e expropriar por esquerdas ou direitas; que se esgota em fumo de incenso ou nos ventos do activismo social… Talvez por isso muitos não crentes olhem para nós com desdém ou com pena, em vez do espanto pela fortaleza e pela eterna novidade.

Luz e fermento?… Mas isso é tão incómodo… Não será bem melhor embrulhar o talento no lenço da mão e escondê-lo no seio, afagando-o diariamente com a alegria de ainda estar ali, tão conservadinho e protegido?…

Perdoem-me o pessimismo de considerar que há demasiada gente a pensar assim, desdobrando-se em escapatórias, espreitando por detrás das cortinas ou dormindo no sossego dos vidros duplos. Gente capaz de transformar a inércia em dogma e, consequentemente, recusar ao Espírito qualquer oportunidade de mexer as águas.

Ecumenismo? (Vade retro!…). Compromisso no Mundo? (Mas se ele é imundo!…).

Confissão das culpas?…(Isso dá armas aos adversários…). Pastoral sócio-caritativa?

(Cuidado que pode ser comunismo…). Alegria cristã? (Perigosa desvalorização da cruz…). Pluralismo?… (desamor da verdade). Etc., etc.

Às portas de um novo ano pastoral, talvez não venha a despropósito um exame sério. Bem pelo contrário.




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