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Fé e política

A óptica que impele os cristãos nessa desafiante actuação política não pode ser simplesmente a conquista do poder

N/D
13 Ago 2004

Há realidades que conservam a sua identidade no plano do ser e do agir, quando se relacionam; outras revelam, de imediato, uma contraposição. As primeiras, precisamente por se distinguirem, coexistem e podem enriquecer-se mediante a reciprocidade das suas contribuições.
Nessa perspectiva, pode-se compreender a relação entre Fé e Política. Na verdade, são realidades distintas, sob o aspecto ontológico e científico, embora sejam claros os seus vínculos, quando enxergamos a natureza da fé e lemos a prática política dos cidadãos.

Por sinal, nos primeiros tempos do cristianismo, havia uma consciência bem formada, nesse sentido, como encontramos na “Carta a Diogneto”, no século II: «Os cristãos não se diferenciam dos outros homens nem pela pátria nem pela língua nem por um género de vida especial. De facto, não moram em cidades próprias, nem usam linguagem peculiar, e a sua vida nada tem de extraordinário.

A sua doutrina não procede da imaginação fantasista de espíritos exaltados, nem se apoia em qualquer teoria simplesmente humana, como tantas outras. Moram em cidades gregas ou bárbaras, conforme as circunstâncias de cada um; seguem os costumes da terra, quer no modo de vestir, quer nos alimentos que tomam, quer em outros usos; mas o seu modo de viver é admirável e passa aos olhos de todos por um prodígio.

Habitam em suas pátrias, mas como de passagem; têm tudo em comum como os outros cidadãos, mas tudo suportam como se não tivessem pátrias. Todo país estrangeiro é sua pátria e toda pátria é para eles terra estrangeira. (…) Obedecem às leis estabelecidas, mas com seu gênero de vida superam as leis».

Como se pode ver, além da face espiritual, a fé iluminou a vida social e a presença política dos primeiros cristãos na cidade e no meio rural.

A política é um dado inerente à condição dos cidadãos; dessa maneira, não pode jamais ser considerada um adendo na vida dos cristãos porque cristianismo e cidadania exigem-se, respectivamente, como iluminação e como exercício político responsável.

O quotidiano dos cristãos, como nos tempos de Diogneto, é vivido na polis, na cidade, no espaço habitado, de modo que as responsabilidades decorrentes da fé cristã, ao lado da dimensão sacra e misteriosa, também apontam para as acções cidadãs.

(…)

Fé e Política são realidades que devem ser entendidas no nível da concepção e no plano da interacção, nas situações concretas em que vive o cristão que é, ao mesmo tempo, cidadão. Na vida dos discípulos de Jesus, o divórcio entre esses dois componentes essenciais deve-se, em certo momento da história, à acentuação da dimensão espiritual da fé, mas também à interiorização de um conceito desvirtuado de política, em razão dos desmandos administrativos patrocinados pelos políticos.

A mudança dessa ordem de compreensão acontecerá na medida em que os cristãos assumirem os compromissos políticos, iluminados pelos valores da fé e movidos pelos princípios da ética.

A óptica que impele os cristãos nessa desafiante actuação política não pode ser simplesmente a conquista do poder porque nessa aventura, reconhecidamente, se envolvem todos aqueles que buscam os seus interesses, mesmo que, para isso, utilizem práticas criminosas, como a compra de votos e a utilização da máquina administrativa…




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