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A imagem e a realidade

Vivemos numa época em que os deuses caem. Em que se vêem a nu as cobardias de falsos heróis. E perante os factos, muitos ficam boquiabertos. Só se desilude quem se deixou iludir

N/D
12 Ago 2004

Fiz o Curso de Cristandade em 8 de Agosto de 1964. Uma das afirmações que lá ouvi, e tenho recordado pela vida fora, é a de que ninguém é grande para o seu criado de quarto.
Todos somos humanos. E ser humano é ser limitado. É ter altos e baixos. É ter êxitos e fracassos. O importante é que nos não deixemos endeusar pelos pontos altos nem nos deixemos ficar prostrados nos momentos de abatimento. Como as ondas do mar, a vida é feita de cristas e de vales.

Não há como aceitarmo-nos como somos, embora o facto de termos defeitos – porque perfeito, só Deus – nos leve a cair na tentação de só vermos em nós defeitos ou de andarmos tão inconscientes que os defeitos consideremos virtude.

Uma coisa é o que somos para quem nos conhece no dia-a-dia e outra, o que somos para quem só ocasionalmente nos vê. Quem nos conhece na intimidade sabe, melhor que qualquer outra pessoa, o que realmente cada um de nós é.

Há o ser e o parecer. Há a imagem e a realidade. Nem sempre as duas coincidem. Mais: entre uma e outra chega a haver uma enorme distância.

Vivemos numa sociedade em que se cuida muito da imagem. Em que as pessoas se preocupam muito com o que delas se possa pensar. E trata-se, então, de fazer um conjunto de retoques a fim de que os outros pensem o que desejamos que pensem.

Faz-se isso em relação às coisas e em relação às pessoas. Vejam o cuidado que se põe na fachada de certos prédios. Transposta a porta, o interior nem sempre é o que o frontispício dava a entender. Vejam o que se passa com certos rostos: retirados os cremes e as pinturas, o que parecia uma cara jovem e bela deixa a descoberto muita coisa que se pretendeu encobrir.

Assim como se pretende criar um falsa imagem do aspecto físico das pessoas e das coisas, também isso acontece quanto a outros pormenores da vida de cada um.

Pessoas que na rua se apresentam como extremamente simpáticas e gentis são, em casa, simplesmente insuportáveis. Pessoas dotadas de grande verbosidade, sempre prontas a falar de tudo, escondem com o palavreado uma cultura mais que superficial.

Pessoas que não deixam de zurzir forte e feio no vício e se apresentam como modelos da estátua da honestidade e da honradez, escondem comportamentos altamente reprováveis.

Numa sociedade que tem a arrogância de querer dispensar Deus, não faltam os que se apresentam como deuses e os que como deuses são olhados.

Há os que se endeusam. Que se apresentam como seres superiores. E há os que são endeusados e se deixam endeusar. Os que gostosamente vêem queimar-lhes toneladas de incenso que não deixam de pagar com magnânima generosidade.

Mas nada há oculto que não venha a revelar-se. E quando se verifica que os deuses tomam forma humana; quando se verifica que os tais seres superiores são, afinal, como os simples mortais; quando se verifica que os modelos de virtude também alimentam os seus pecadilhos ou até os seus pecadões…

Vivemos numa época em que os deuses caem. Em que se vêem a nu as cobardias de falsos heróis. E perante os factos, muitos ficam boquiabertos.

Só se desilude quem se deixou iludir. Num mundo em que a transparência é um vocábulo repetido a propósito e a despropósito, é bom que tomemos consciência das muitas opacidades. É que a transparência, por vezes, não passa de um manto habilmente fabricado para ocultar o que realmente o não é.




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