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Faces e disfarces

E a voz que não é voz, a segredar-me: perdemos a memória de quem somos, mas todos somos o que escolhemos ser…

N/D
9 Ago 2004

De súbito, algo acontece. Não é um grito surdo. Não é um som longínquo. Não é sequer uma palavra, um gesto ou um olhar. Podia ser tudo isto, mas não é só isto. É algo que está mais perto. Tão próximo como a minha pele ou os meus sentidos. Mas não se vê, não se palpa, não se cheira, não se ouve.
Respira-se

Avisa-me.

É um sinal…

O sinal vem de dentro, não sei se de um lugar oculto ou desconhecido, ou despercebido. Não sei se sempre lá esteve ou se nasceu de repente, na distracção da vida ou no sopro de um qualquer vento contrário. Não tem contornos, nem cor, nem cheiro, mas existe e atrai a minha atenção, como um presságio. Sei-o porque olho para dentro de mim. Os olhos que olham para dentro não vêem mas sabem – sentem…

Fico atenta. O que quer dizer-me este sinal? O ruído exterior distrai-me. Procuro isolar o sinal e concentro-me. O que quer dizer-me? O que tenho que aprender?

Porque surge assim, no meio do Outono, quando a vida parece já instalada e a memória é pó que se desfez na noite sem sonhos? Não sei. Apenas constato que os sinais surgem sempre no momento mais oportuno – quando estamos preparados para integrar um conhecimento novo ou esquecido.

Sim, agora começo a identificar este sinal. Pelo menos sei que não é novo, pois reconheço alguns matizes a insinuar-se dos espaços de memória já dispersos. Este sinal avisa-me. No meio de alguma incerteza, e combinando recortes de pensamentos soltos, eu ouço uma voz que não é voz a segredar-me: perdemos a memória de quem somos, mas todos somos o que escolhemos ser…

Somos muitas faces. E tantas vezes disfarces. Máscaras que se metamorfoseiam com o tempo, fazendo do mundo um imenso palco onde se representam permanentemente dramas e comédias. Todos parecem correr atrás do papel mais importante, mas já todos se esqueceram de qual é, porque ninguém pára um segundo para pensar e questionar o trajecto. As respostas, se acaso há respostas, só se obtêm no silêncio da intimidade do nosso quarto interior. E nem tudo é o que parece…

Cada qual se veste de mil caras, num labirinto de bastidores onde a realidade e a aparência jogam um paciente jogo de luz e de sombra. Uma e outra misturam-se em subtilezas e complicidades, transformando-se na mesma mancha multiforme e ambígua.

O que cada um é, encerra inevitavelmente o melhor e o pior, ainda que a faceta que aflora à superfície nem sempre se revele sob a forma de extremos.

Este cinzento que cobre tudo lá fora não é só por causa da ausência de sol…

A suspeita é de que o melhor e o pior têm uma residência encoberta e inevitável dentro de cada um…

Não há balanças fiáveis de equilíbrio. Certezas não se equilibram…

Há circinstâncias, contradições, ignorância, vontades inconfessáveis e impulsos irreprimíveis. Ódios e amores sem porquê.

Quem somos? O que queremos?

No sonambulismo da vida ignoramos a interrogação permanente para esconder o espanto de nós. Mas este espanto só se concebe porque inventámos uma fronteira entre nós e os outros, tornando-nos incapazes de nos observarmos e julgarmos de fora para dentro.

É mais simples e mais cómodo fazer dos outros os bodes expiatórios dos nossos defeitos e fracassos. Olhar o espelho e reflectir uma máscara fingida de perfeição evita que nos confrontemos com a verdade do nosso eu mais profundo.

Como se nós e os outros não fossemos faces da mesma moeda, diferentes cenários da mesma natureza! Como se pudéssemos escapar do mesmo destino comum!

E um dia, o pior que existe em cada um surge em toda a sua magnificência ou então fica encoberto, velado. Em gestos. Palavras. Omissões. Silêncios forçados ou permissivos. Mentiras. Medos. Fugas. Mas está lá, preparado para se soltar e surpreender.

De repente, num virar de esquina da vida, um tropeção em nós próprios – uma dor aguda. Uma revelação inesperada. Eis que aflora à superfície a verdade nua e crua.

Mas ninguém se quer reconhecer quando esta verdade coincide com o pior que existe adormecido no mais profundo de si.

E agora, quem é quem? Em cada face transparente há mil disfarces ocultos. E mais um ainda, que é aquele que subitamente nos surpreende, choca, abala, abana e faz parar por um momento. É quando algo acontece em cada consciência adormecida. Uma espécie de luz que acende por dentro, sem aviso de ninguém. Uma porta que se abre.

Um sinal que se pressente. O sinal mais parecido com a verdade.

Afinal, somos todos diferentes ou somos todos iguais?

E a voz que não é voz, a segredar-me: perdemos a memória de quem somos, mas todos somos o que escolhemos ser…




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