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Apontamentos “ao acaso”

Por que motivo não há ainda uma expressão para aquela que assenta praça ou que distribuia correspondência, parecendo querer fazer vingar o uso do substantivo masculino com o artigo feminino?

N/D
7 Ago 2004

1Aplicando à época de verão uma conhecida terminologia, poderemos dizer que a praia, com o mar, é um lugar “2 em 1”.

Para umas pessoas eles são sinónimo de descanso, descontracção, quer em férias (que sabem sempre a pouco…), quer apenas num curto fim-de-semana. Num caso ou noutro, e com o mesmo cenário, desde as entradas em palco até à representação das cenas, o espectáculo não varia muito: ela faz uma maquinal renda e dá dois dedos de conversa, e ele lê o descontraído jornal; mais adiante lê-se um deitado livro, de um dos autores preferidos ou escolhido do expositor. Enquanto isto, outros divertem-se na água, ou passeiam pela pista de areia molhada: “Olha, as gaivotas andaram por aqui de noite, pois deixaram as impressões digitais, a que apuseram o carimbo; e deixaram a praia com pena(s) de irem embora”. “Aquele vulto lá adiante é uma pessoa ajoelhada ou é algum tronco que o mar devolveu a terra deixando-o de pé na areia?” Não falando já dos jogos de bola ou dos toques de raquete; ou dos que arranjam um cómodo encosto nas rochas quando a maré não está lá sentada.

Para outras pessoas o mar é sinónimo de ganha-pão. Tão conhecido que não vamos referir aqui os seus perigos e sacrifícios. Por isso a “objectiva” se detém apenas naquela pessoa que “hoje” destoa entre os banhistas todos; ou serão estes que destoam dela, invadindo um domínio habitualmente seu?! Indiferente à presença de todos eles, parecendo mesmo não estar interessada na conversa que um tenta iniciar, ela anda “de cá para lá, de lá para cá” demasiado preocupada para trautear qualquer canção… Sacola ao ombro, apanha algas do chão ou arranca-as das rochas, não hesitando minimamente meter-se mar adentro assim vestida e tudo para atingir os seus intentos. Tarefa que ajuda a aumentar uns “cêntimes” ao pecúlio que guarda no cós.

2. Pelas praias aqui do norte há uma visita que tem tanto de imprevista, pois surge quando menos se conta, como de indesejável. Tem a sua personalidade própria, na medida em que surge quando muito bem lhe apetece, pouco ou nada se importando com a (falta de) receptividade das pessoas. Nota-se que a tal visita está também em férias pois, nos dias em que aparece, costuma chegar à hora que quer, umas vezes de manhã e outras de tarde, com a genica que muito bem entende, e passear-se pelo areal adiante sem parar, mas sempre na mesma direcção, a caminho do sul. É assim a nortada.

Mas, como “não há regra sem excepção”, há dias quem chegava ao areal reparava que o vento soprava de sul para norte, o que parecia ir contra a regra normal… Tão estranho que havia quem espetasse o pára-vento e se abrigasse do lado de onde o dito soprava. E surgiu o comentário espontâneo: “Hoje temos sulada”. Pensei então que quando tiver o dicionário à mão hei-de ver se a palavra existe. E se não existir não pode ser “registada”?

Nota-se que em férias o tempo corre tão devagar que há mesmo tempo para divagar sobre o tempo que faz. Ou para deixar correr a esferográfica à vontade: Em miúdo ouvi alguém dizer que, se “não há regra sem excepção”, esta mesma regra há-de ter também a sua própria excepção, o que implica que a regra em si perca o seu significado.

3. Posta a (possível) questão daquele neologismo, interrogo-me sobre quem tem autoridade para “registar as respectivas patentes”. Põem-se hoje questões ou surgem situações que não se verificavam há dez ou vinte anos. Quando a Polícia começou a ter elementos femininos, de ime-diato surgiu a expressão “mulher-polícia” (pergunta a minha (de)formação profissional se terá sido influência da língua inglesa). Nos substantivos comuns de dois a questão até se resolve com um simples artigo (sem ser necessário qualquer decreto). Mas por que motivo não há ainda uma expressão para aquela que assenta praça ou que distribui a correspondência, parecendo querer fazer vingar o uso do substantivo masculino com o artigo feminino?

Por estarmos no verão e no tempo quente, acho que isto não é uma “questão de lana-caprina” (E lá vou eu pegar mais uma vez no alfarrábio: lana-caprina não é mais que a lã das cabras, que não a têm, como as ovelhas). Tenho naturalmente uma opinião sobre o assunto, alicerçada em questões já postas a quem mais de direito.




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