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“Feuerwehr”, um exército contra o fogo

Os fogos e a minha “santa paciência romano-germânica”. Vá-se lá saber porquê (“defeito” de fabrico, por certo) nas raras ocasiões em que estou irritado com a política ao ponto de quase perder a compostura, às vezes nesses momentos começo a pensar em italiano ou em alemão.

N/D
4 Ago 2004

Depois passa-me. Mas enquanto dura, parece revelar a intuição que eu tenho, de que se a Coisa Pública portuguesa continua assim tão desesperante e se tivermos mesmo um dia de “fechar a loja”, de abrir falência, de deixarmos de existir como povo, eu pessoalmente já encontrei a alternativa.
Na medida em que, a par de pacato celtibero conformista, também me sinto suevo-godo e romano. Alemães e italianos, outros povos esses, machos, sábios, valentes, coerentes, de gosto refinado e com uma História que impõe respeito em qualquer parte do Mundo.

Ora um dos tais motivos que me fazem perder a compostura, são os milhares de fogos-postos que têm lugar no Verão português. Acho esta situação absolutamente inadmissível num país civilizado (e para mais, com uma Economia virada para o Turismo). Mas desde há 30 anos ela vai acontecendo “pontualmente”.

Sem dúvida que se trata de um ataque ao nosso país, vindo de inimigos externos e internos que nos desprezam, invejam ou odeiam, ao ponto de gozarem com o nosso Património, a nossa Natureza, a nossa Paciência e a nossa Inteligência. Nesta medida, sinto-me pessoalmente ofendido, até.

Além do que, também as ofensas a Deus Nosso Senhor (e à Natureza, que é uma Sua obra, de que Ele nos fez presente) mexem com as zonas mais biliosas, instintivas e incontroláveis do psiquismo. E fico furioso… Penso então em italiano, penso em alemão.

Só encontro refrigério se esquecer por horas o Cristianismo em que fui educado. E em me transformar momentaneamente num cônsul ou centurião justiceiros e sem respeito pela vida humana. Ou num irresistível bárbaro vingador que surge inopinadamente “de profundis”, lá da Selva Hercínica, à cabeça duns milhares de “berserkers”, a cavalo e a pé.

2 – Feuerwehr, Abwehr, Wehrmacht, etc. Ao pensar em alemão, numa destas ocasiões, ocorreu-me que “corpo de bombeiros” se diz naquela língua “Feuerwehr”, isto é, numa tradução literal, “exército dos fogos; defesa, arma, couraça contra os incêndios”. É pois de um “exército” que se trata, de verdadeiros soldados.

Em Portugal desvirtua-se no bombeiro esta qualidade de “soldado”, quando se diz que eles são apenas soldados “da paz”, isto é, que não são soldados nenhuns. São apenas homens de boa vontade fardados, pouco mais conceituados que os carteiros, jardineiros municipais ou lixeiros, que esses ao menos dão boa conta do seu serviço.

Os objectivos dos bombeiros não são considerados absolutos, militares, primordiais.

Não se considera que actuam em casos em que os interesses da Pátria são directamente ofendidos. Nunca se sentem eles no direito de exigir posteriormente a indispensável identificação e dura punição de todos e quaisquer culpados, dos responsáveis directos e dos mandantes causadores das ofensas ao património dos cidadãos dessa Pátria.

São meras tropas auxiliares, sem autonomia nem poder reivindicativo, frequentemente liderados por chefes suspeitos pelo Povo, de corrupção, já que alguns deles também abastecem comercialmente a corporação com material consumível. Por outro lado, Portugal é um país que tem tropas para mandar para o Iraque ou para a Bósnia; mas não tem tropas para combater os incêndios, nem aviões próprios para o combate aos fogos. Tem de os alugar a empresas suspeitas, objectivamente interessadas em que haja muitos fogos.

3 – O país das florestas sem nome. O nosso grande atraso cultural faz com que em Portugal as florestas e bosques só valham pela lenha, ou pela cortiça, pasta de papel, resina ou outros frutos que produzam (castanhas, azeitonas, bolotas, amêndoas, etc.).

A floresta nunca tem interesse em si mesma. Pelo seu impacto positivo na paisagem, pela sua grandeza, pela sua sombra, sequer pela sua virtualidade de absorver o carbono do ar e produzir oxigénio. Nada disso tem qualquer importância para o português comum, aliás cada vez mais um filho da cidade, um urbícola, um “bicho do betão”…

Contudo, em países mais civilizados (a começar pela vizinha Espanha) a industrialização não afastou sentimentalmente os citadinos em relação ao campo. Este é encarado como algo de sagrado e além disso um contrapeso ao “stress” das grandes cidades. Daí que nesses países as florestas sejam protegidas. E até, que quase todas tenham um nome identificativo, que consta nos mapas mais detalhados.

Em Portugal também os há, mas muito poucos: pinhal do Camarido, pinhal de Leiria, tapada de Mafra, Bom Jesus e Sameiro, serra do Gerês, Arrábida, Reboredo e
S. Mamede… e pouco mais. Sem falar de que os arvoredos estão quase todos degradados, infestados por eucaliptos ou simplesmente queimados.

Pelo contrário, naqueles países quase todas as florestas estão preservadas e têm até nome. Algumas delas são mesmo bem grandes. Lembremos aqui p. ex. na França, as florestas de Landes, de Compiègne, Argonne, Haguennau, Fontainebleau, Orléans, Chinon, Amboise, Chambord, Vierzon, Chaux, la Double, Grammat, M. des Maures, etc..

Na Alemanha, o Schwarzwald (Floresta Negra), o Harz, o Taunus, o Pfalzerwald (Palatinado), a Floresta da Boémia ocidental, o Fichtelgebirge, o Luneburger Heide, o Teutoburger Wald, os bosques da Turíngia, Lusácia, do Erzgebirge, do Soree Havel e tantos outros. Em Espanha há imensos bosques e coutadas inventariadas, p. ex. as inúmeras “dehesas” das províncias de Zamora, Salamanca, Cáceres, Toledo, Ciudad Real, Sevilha, etc.., cujos nomes seria fastidioso enumerar aqui.

4 – “Começou a festa…”. Estava eu a escrever este artigo e ocorrem os inúmeros fogos-postos organizados que estão rivalizar com os de 2003 e a destruir os grandes arvoredos da Arrábida, da Serra do Caldeirão, da província do Minho, de Goujoim (Armamar), de Linhares (Ansiães), de Valpaços, de Torres Novas, de Almodôvar, de Tavira e Alcoutim.

Palavras para quê? “São artistas portugueses”, (que talvez tenham ainda a bandeira pendurada na janela da casa…). O ano promete. Sem investigação a sério e repressão é que não vamos lá… A prevenção por si não resolve nada.




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