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Essa estranha dedicação aos animais…

Pessoa alguma pode ser substituída pelo animal mais bonito, mais terno ou mais dedicado

N/D
2 Ago 2004

26 de Julho de 2004 – ‘dia nacional dos avós – às 10 horas e quarenta minutos. No jardim principal de Sesimbra vemos afanosamente duas senhoras a cuidar de um pequeno cachorrinho. Nem os preparativos de um funeral – vimo-lo depois que havia ligação circunstancial – em que as ditas matronas iam participar/assistir as desconcentravam de fazer bebericar o animal. O defunto merecia menos atenção do que aquele bibelô…tão apaparicado!
Com efeito, desde há uns anos temos visto crescer uma certa dedicação aos animais.

A causa de tanta e tão ‘sublime’ descoberta nem sempre é fácil descortinar: esse interesse é sincero ou poderá encobrir alguma compensação psicológica/afectiva mais subtil? Revela atenção aos bichos ou desatenção aos humanos? Cria descrédito na sociedade das pessoas ou optimismo à protecção dos animais? Quem ganha, afinal, com tanta afeição aos (ditos) amigos da pessoa humana?

Com estas questões – mesmo que disjuntivas – não pretendemos em nada menosprezar o respeito que os animais merecem, antes queremos somente tentar discernir o significado desta exaltação do papel dos animais na nossa cultura actual.

* Da sorte de cão aos cães de sorte – Já lá vai o tempo em que ‘sorte de cão’ significava uma certa dose de vadiagem se não propositada ao menos consentida. De facto muitas das ruas de cidades e aldeias estavam pejadas de cães vadios, de gatos abandonados e mesmo de outros bichos menos queridos, que eram postos na rua por negligência dos donos. Sobretudo em tempo de férias era habitual ver esse triste espectáculo… Com o passar do tempo e através da consciencialização para os ‘direitos dos animais’ – veiculados, defendidos e exaltados por associações de benemerência – temos visto surgir campanhas de adopção, de apadrinhamento e de guarda (temporária) de animais de companhia ou outros.

Nalguns casos nota-se a tentativa de pôr a funcionar as condições mínimas de canis (municipais ou privados), de hospitais e de hotéis… onde os gastos quase envergonham os mais de duzentos mil portugueses que – dizem as estatísticas – não têm o mínimo para a subsistência diária!

* Cuidados sim, exageros não – Vão surgindo notícias de novos conceitos de ‘família’ em que uma pessoa e um cão/gato como que emergem na nomenclatura de agregado familiar. Pelo que se vê, no trato de rua, muitos dos ditos ‘animais de companhia’ polarizam as energias afectivas das pessoas, onde os sinais de carinho como que substituem as pessoas (filhos, parentes ou outros) num entendimento afectivo – assim poderá parecer – um tanto desviado…

Em certas situações não será difícil de perceber que tanta dedicação tenta colmatar algo que devia ser mais natural – pelo menos na compreensão do termo – e menos como que afectado, como se fosse compensação psicológica ou como substituição afectiva.

* Traçar prioridades – Antes de tudo as pessoas são o essencial, embora em países como nos Estados Unidos da América vão surgindo as mais díspares iniciativas da indústria dos animais de estimação com ginásios, salões de beleza, cemitérios, obituários e serviços religiosos (para já do que se conhece num templo budista).

Nota-se que, enquanto se dá o crescimento da solidão, da angústia e da procura de companhia, vai ganhando adeptos essa dedicação entre os defensores dos animais, sejam como estimação ou como presença…

Certas propostas em favor dos animais são tanto benéficas quanto urgentes, tendo sempre em conta que pessoa alguma pode ser substituída pelo animal mais bonito, mais terno ou mais dedicado.




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