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A Cartilha

Pobre país!… onde o «estado de graça» e o «benefício da dúvida» foram abolidos da cartilha

N/D
30 Jul 2004

Existe um velho princípio, reconhecido por todos os verdadeiros desportistas que diz: – «nunca se deve subestimar o adversário».
Infelizmente, esta máxima tem sido sistematicamente esquecida pelos políticos portugueses.

Vem todo este arrazoado, a propósito da embrulhada em que se envolveu a política lusitana, por causa da ida de Durão Barroso para Bruxelas.

O que deveria ser uma situa-ção normal – dada a nossa participação na União Europeia – tornou-se um acontecimento que abalou a pacatez lusitana.

Tudo isto acontece por inveja e pelo intrigante costume que temos de dizer sempre mal do adversário. São «itens» da cartilha política!…

Para tanto, põe-se de lado a coerência e o sentido de justiça; menospreza-se a lógica e, até, o patriotismo.

Durante dois anos, toda a oposição passou o tempo a pedir a saída de Durão Barroso do governo e não faltaram cartões e cartolinas, assobios e slogans.

Por lógica e coerência, toda esta gente devia estar contente, com a saída de Durão Barroso; contudo, todos lhe censuram a ida para a Europa.

Várias conclusões se podem tirar.

A primeira é que o único cartão mostrado foi, precisamente, a quem mais andou na rua a exibi-los.

A segunda será de que a cartilha política, por onde os europeus lêem, é diversa da cartilha do político português.

A cartilha partidária portuguesa é redutiva, unilateral e nunca aprecia o valor do adversário.

O que aqui se despreza é louvado lá fora e muito daquilo que aqui se bajula, lá fora, não merece qualquer apreço.

Os «mitos» lusitanos, alcandorados paroquialmente e plintos de barro, até já demonstram o despeito em que ficaram!…

A pergunta que se coloca é esta:

– Sendo certo que Durão Barroso não é a suprema nata da política portuguesa, será um político assim tão banal, como internamente se quer mostrar?…

– A escolha para alto cargo europeu mostra que não.

Só por sadismo deletério é que vinte e cinco chefes de outras tantas nações europeias iriam escolher um presidente inepto e sem valor, para coordenar os trabalhos em que estão empenhados.

Como português, sinto-me naturalmente orgulhoso e acho que se o elegeram é porque, na análise feita ao respectivo currículo, encontraram valores de que não quiseram prescindir.

No meu entender, esses valores foram:

– A maleabilidade pessoal para consensos; a facilidade de manuseamento de diversas línguas; o bom trabalho no Ministério dos Negócios Estrangeiros e a já percebida recuperação económica do país, em situação tremendamente difícil.

Mas, quanto a mim, o grande trunfo, que lhe arranjou respeito e admiração na Europa, foi o controlo do déficit público, abaixo dos 3% do PIB, que nações mais importantes, como a França e a Alemanha, não conseguiram.

Enfim, aquilo a que a cartilha política portuguesa não dá valor é apreciado no estrangeiro.

Torna-se, por isso, necessário rever alguns «itens» da cartilha política lusitana.

– Com a saída de Durão Barroso, por legítima e legal disposição presidencial, tomou posse do governo Santana Lopes.

Ora, ainda o homem se não tinha sentado na cadeira do poder, nem legislado o mais pequeno receituário governativo, e já eram tantas as pedras lançadas sobre o ainda não nomeado governo, que já não sabemos se é a doença que requer o fármaco ou se é o fármaco que exija a doença.

– Pobre país!… onde o «estado de graça» e o «benefício da dúvida» foram abolidos da cartilha.




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