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Em busca da vocação perdida

A necessidade de criar Comissões de Humanização nos serviços de saúde suscita-me alguma reflexão. Eu explico: na minha opinião, o que deveria orientar uma pessoa para uma profissão na área da saúde seria a sua apetência para as ciências humanas, estando aqui implícita uma certa vocação para “servir” os mais desfavorecidos pela natureza – os doentes.

N/D
28 Jul 2004

De modo algum pretendo aqui defender a filosofia da caridade ou do voluntariado muito presentes nos primórdios das profissões de saúde, nomeadamente a Enfermagem, mas hoje desajustada no contexto da profissionalização neste sector.
Não obstante, parece-me pacífico afirmar que cada indivíduo possui características pessoais, ou capacidades inatas, que se enquadram melhor em determinada profissão, ainda que esta adequação seja cada vez mais difícil de fazer, por razões quantas vezes alheias aos próprios interessados.

Independentemente da rápida evolução que sofreram todas as profissões de saúde nas vertentes técnica e científica, o seu objecto continua a ser o mesmo, isto é, o ser humano visto numa perspectiva holística. Pode pois, ser pertinente reflectir porque razão é que à medida que as profissões de saúde evoluíram se constatou a sua progressiva desumanização.

Será que a evolução tecnológica e a especialização serão incompatíveis com a humanização? Devo admitir que existem inúmeras variáveis à volta desta questão, ainda que o objecto destas profissões continue a ser o mesmo e a evidência demonstre que por maior que seja a sofisticação técnica, ainda não existem aparelhos que substituam a vertente humana na interacção com o doente, ou seja, a comunicação, o toque, o gesto afável, a disponibilidade, o respeito, a empatia e – tão importante como esquecido – a abordagem do doente como um todo indivisível.

Hoje, a salvaguarda dos direitos do doente está bem patente nos códigos éticos e deontológicos, na criação das Comissões de Humanização e de outros mecanismos de protecção destes direitos. Mas todos sabemos que não basta a existência de diplomas normativos para assegurar a humanização, se esta vertente não estiver naturalmente integrada, como algo de inato, na postura da pessoa que presta cuidados. Por outro lado, talvez não seja descabido afirmar, esta questão não pode ser desligada do contexto da educação e da formação pessoal de cada um.

A prestação de um mau serviço será sempre condenável, mas na área da saúde assume um maior impacto, porque os clientes são, à partida, pessoas fragilizadas física e psicologicamente, dependentes, expostas a um meio ambiente desconhecido e que algumas vezes se torna assustador ou, até mesmo, hostil. Nestas circunstâncias, falar em vocação pode fazer todo o sentido.

Daí que os candidatos a profissionais de saúde, mais do que quaisquer outros, deveriam ser atempadamente orientados para fazer conscientemente as suas opções de acordo com as suas características pessoais ou capacidades inatas, e não seleccionados através de critérios que não têm estes aspectos em consideração, nem tão pouco valorizam a importância do alvo da futura actividade profissional.

Creio que todos ganharíamos se cada um tivesse a oportunidade de exercer a sua profissão no “lugar certo”, ao mesmo tempo que se preveniriam futuras incompetências e frustrações, pois estariam criadas as condições básicas para o desenvolvimento de potencialidades pessoais e profissionais.

Com pessoas “certas” nos “lugares certos”, isto é, competentes, satisfeitas e realizadas, teríamos certamente uma sociedade mais justa, mais equilibrada e melhor preparada para prestar bons serviços. E, quem sabe, deixaria então de ser necessário criar Comissões para assegurar um direito que assiste por natureza a todo o ser humano – ser tratado com dignidade e respeito.




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